Fusões e aquisições no setor de saúde e bem-estar mantêm ritmo acelerado
Grandes conglomerados de bens de consumo aceleram aquisições de marcas de suplementos e saúde funcional para acompanhar mudanças no comportamento do consumidor.
As aquisições corporativas em 2026 continuam fortemente orientadas para o mercado de saúde e bem-estar.
Recentemente, a Procter & Gamble (P&G) anunciou a compra da marca de suplementos Thorne por US$ 3,8 bilhões, integrando uma onda de transações de alto perfil no segmento de bem-estar.
O movimento sinaliza que grandes conglomerados de bens de consumo embalados (CPG) buscam cada vez mais marcas de alto crescimento com embasamento científico para reforçar seus portfólios. Essa estratégia acompanha a mudança das prioridades dos consumidores em direção à longevidade, saúde funcional e demandas nutricionais associadas ao crescimento do uso de medicamentos da classe GLP-1. A compra da Thorne é mais uma grande aquisição no setor de suplementos em 2026. No início do ano, a startup de multivitamínicos em goma Grüns, fundada há três anos, foi adquirida pela Unilever por um valor não divulgado.
O negócio da P&G ocorre após uma série de mudanças no controle acionário da Thorne, que incluiu um IPO em 2021. Desde então, a empresa fundada em 1984 havia sido fechada pelo fundo L Catterton em uma transação avaliada em US$ 680 milhões. Segundo a Thorne, sua receita anual ultrapassou US$ 500 milhões em 2025.
Mike Ross, líder de transações no setor de mercados consumidor da PwC nos Estados Unidos, destaca que os grandes conglomerados de CPG estão reestruturando seus portfólios para acompanhar a migração dos consumidores em direção a produtos focados em saúde e bem-estar.
“Vemos as empresas de bens de consumo muito mais intencionais sobre o que deve e o que não deve fazer parte de suas carteiras de marcas”, afirmou Ross. Esse reposicionamento é impulsionado pela expansão no uso de medicamentos GLP-1 e por mudanças de estilo de vida que elevam a demanda por produtos ricos em proteínas e fibras, focados em hidratação e com controle de porções.
À medida que os consumidores priorizam essas transformações, as empresas revisam ativos que já não se alinham a tais hábitos. Paralelamente, os grandes investidores estratégicos buscam adquirir marcas com posicionamento crível e respaldo científico em bem-estar. “Por isso observamos mais desinvestimentos em ativos secundários ocorrendo ao mesmo tempo em que se realizam aquisições para fortalecer a posição de longo prazo nas categorias de saúde e nutrição preventiva”, explicou Ross. Esse apetite do mercado reflete uma tendência mais ampla, em que a Cymbiotika atrai novos aportes em meio à expansão dos suplementos premium e de soluções nutricionais de alta performance.
Dessa forma, os investidores estratégicos mantêm forte interesse em categorias de saúde funcional, como soluções para longevidade, suplementos alimentares e nutrição adaptada a usuários de GLP-1.
Ross enfatizou que os investidores enxergam essas transformações como mudanças estruturais no comportamento do consumidor, e não como modismos passageiros. Ele citou um relatório recente da PwC sobre tendências de consumo associadas ao uso de medicamentos GLP-1, indicando que a adoção dessas terapias para perda de peso apresenta forte penetração nos lares norte-americanos, tendo dobrado em um período de 18 meses. Além disso, 80% dos usuários atuais de GLP-1 — e 74% dos que interromperam o tratamento — relatam a necessidade de montar suas próprias rotinas de bem-estar combinando diferentes produtos.
Em relação aos critérios de atratividade para fusões e aquisições (M&A), Ross apontou que o crescimento de receita continua fundamental, somado a uma presença consistente em canais digitais de comércio eletrônico, farmácias e grandes redes varejistas. “Uma capacidade cada vez mais valorizada é a posse de dados proprietários de consumidores (first-party data)”, destacou. Ele acrescentou que, com a inteligência artificial transformando os processos de descoberta e compra, marcas que possuem relacionamento direto e profundo conhecimento do comportamento de seus clientes ganham um valor substancial no mercado.
“Já não basta saber se um produto vende bem na prateleira física; é preciso garantir que a marca apareça em listas de recomendação geradas por inteligência artificial, em feeds de comércio social ou em assinaturas recorrentes”, disse Ross. Marcas de crescimento acelerado, como Thorne e Grüns, exemplificam essa dinâmica.
Rachel Hirsch, fundadora e sócia-gestora da Wellness Growth Ventures, ressaltou que esses grandes negócios no setor de saúde já eram esperados devido à conjunção de múltiplos fatores de mercado.
“Estamos vivendo o período de maior deficiência nutricional da história moderna”, afirmou Hirsch, referindo-se ao acesso cada vez mais restrito a alimentos naturais e integrais a preços acessíveis. Essa realidade resultou na dependência excessiva do consumidor médio de alimentos ultraprocessados e refeições convenientes.
Ela acrescentou que o consumo elevado de ultraprocessados, somado à rápida disseminação dos tratamentos com GLP-1, torna a suplementação um hábito indispensável. “Onde a demanda cresce, o movimento de fusões e aquisições inevitavelmente acompanha”, pontuou.
Sobre os negócios bilionários, Hirsch avalia que o próprio setor passou por uma transformação conceitual profunda. “Caminhamos para um cenário em que as pessoas precisarão de mais suplementação diária, não menos”, afirmou Hirsch. Com essas marcas tornando-se parte integrante da rotina diária de saúde das famílias, compradores estratégicos mostram disposição para pagar prêmios elevados por ativos consolidados e com forte reputação de confiança junto ao público.
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