Pioneira do varejo de cosmecêuticos na China tem falência decretada
A Shanghai UBSKIN teve falência decretada após mudanças regulatórias na China e crise no setor de varejo de beleza tradicional.
Mais uma empresa tradicional da indústria cosmética na China teve sua trajetória encerrada em processo de falência. Em 10 de agosto, documentos do sistema nacional de reorganização e falência de empresas da China confirmaram que a Shanghai UBSKIN Cosmetics Co., Ltd. acumulou passivos sem ativos suficientes nem mesmo para cobrir os custos processuais. A Justiça chinesa decretou oficialmente a falência da companhia e encerrou o processo em 7 de agosto de 2026.
Fundada em 2010, a Shanghai UBSKIN chegou a operar mais de 200 lojas físicas no auge de sua expansão, posicionando-se como a maior rede varejista especializada em cosméticos importados com apelo dermatológico (“cosmecêuticos”) no país. No entanto, a UBSKIN não é um caso isolado: diversas empresas tradicionais do setor vêm enfrentando forte pressão de reestruturação em meio à desaceleração do canal físico e às transformações na regulamentação e no mercado consumidor chinês.
Falência decreta fim de rede pioneira após 16 anos de história
O processo de liquidação por falência foi aceito pelo Terceiro Tribunal Intermediário do Povo de Xangai em 12 de junho, concluindo-se em agosto. Dados de plataformas chinesas de registro corporativo revelam que a empresa acumulava múltiplos litígios judiciais e pendências financeiras não quitadas antes do encerramento das atividades.
Os sinais de dificuldades financeiras e operacionais remontam a 2019, quando a empresa entrou em listas de irregularidade operacional por descumprimento de prazos de relatórios anuais e impossibilidade de localização em seu endereço registrado. Em meados de 2026, os órgãos reguladores locais concluíram o cancelamento compulsório do registro comercial da empresa.
De acordo com publicações institucionais da marca, a UBSKIN foi a pioneira na China em introduzir o modelo ocidental de varejo de cosmecêuticos de livre acesso. Seu portfólio abrangia cuidados com a pele, máscaras faciais, cosméticos infantis e cuidados pessoais. Em 2017, com mais de 200 unidades e parcerias com cerca de 200 marcas internacionais de mais de 50 países, a empresa mantinha um plano ambicioso de alcançar 1.000 lojas físicas no país.
A virada de chave ocorreu entre o final de 2018 e o início de 2019, acompanhada de mudanças regulatórias decisivas. Em janeiro de 2019, a Administração Nacional de Produtos Médicos (NMPA) da China publicou diretrizes proibindo formalmente o uso de termos como "cosmecêuticos", "cosméticos medicinais" e "cuidados médicos com a pele" em rótulos e divulgações de produtos cadastrados como cosméticos. A decisão proibiu a associação explícita entre cosméticos e propriedades terapêuticas, atingindo em cheio o posicionamento central da UBSKIN e forçando o encerramento do seu sistema de franquias.
Para tentar se readequar, a rede retirou as menções a "cosmecêuticos importados" de suas faixas de loja e reposicionou sua identidade de marca. Em março de 2019, lançou o conceito UBSKIN MASK, focado em multimarcas de máscaras faciais importadas e produtos funcionais de marcas internacionais.
Apesardas tentativas de ajuste, a empresa não conseguiu recuperar tração diante do avanço do e-commerce e de novas dinâmicas de consumo. A interrupção da presença em plataformas digitais como o Xiaohongshu — rede social e e-commerce de estilo de vida amplamente utilizada na China —, aliada à execução judicial e ao cancelamento de registros, culminou no encerramento completo da rede de 16 anos.
Falências, leilões e reestruturação no setor de beleza chinês
O caso da UBSKIN reflete um movimento mais amplo na cadeia de suprimentos e no varejo de beleza na China. Registros públicos do portal de reorganização empresarial indicam que mais de 20 empresas ligadas a cosméticos entraram em processos de falência em 2026, abrangendo desde marcas tradicionais e redes de varejo físico até distribuidoras de importados e fabricantes por contrato (OEM/ODM).
A pressão sobre o varejo físico tradicional ocorre em um momento de consolidação, no qual o mercado de beleza na China em 2026 passa por intensa concorrência nos canais digitais e por transformações nas preferências do consumidor.
Entre os casos notáveis do ano estão a rede regional Taizhou Mingyuan Mingzhuang, de 25 anos, que almejava rivalizar com grandes cadeias internacionais de perfumaria e varejo; a Shanghai Meilan Cosmetics, marca de 40 anos famosa por seus cremes faciais tradicionais ("vanishing cream"), falida com dívidas de 19,4 milhões de yuans; e a subsidiária de cosméticos do centenário grupo de medicina tradicional Beijing Tongrentang, submetida a liquidação compulsória por endividamento.
A conclusão dos processos formais de liquidação, no entanto, nem sempre resulta na recuperação de valores para os credores. A alienação judicial de ativos intangíveis, como marcas registradas e participações societárias, tem enfrentado baixa liquidez no mercado. A marca COCOVEL, pertencente ao grupo Shanghai Jieshibao, teve 42 registros de marcas arrematados por 405 mil yuans após 54 lances, enquanto participações acionárias da mesma controladora acabaram vendidas por valores simbólicos de pouco mais de 2 mil yuans após leilões sem ofertas iniciais.
Na ponta da fabricação por contrato (OEM/ODM), os fornecedores de médio e pequeno porte continuam enfrentando aperto operacional. Até meados de junho de 2026, pelo menos 14 indústrias de manufatura de cosméticos na China registraram inadimplência ou processos de execução judicial, incluindo fabricantes como Guangzhou Suorou Biotechnology e Guangzhou Bocali Biotechnology, cujos ativos produtivos foram a leilão repetidas vezes.
Especialistas e analistas do setor observam que essa onda de encerramentos ressalta a importância de agilidade regulatória, inovação em formulações e adaptação aos canais diretos ao consumidor (DTC) e comércio eletrônico. As marcas de beleza e parceiros de fabricação que não constroem diferenciais tecnológicos próprios ou não acompanham as mudanças no comportamento do consumidor acabam perdendo competitividade à medida que o mercado de cosméticos na China se consolida.












Conversa
0 comentário