18 de agosto de 2026

Ruby Hammer reflete sobre sua trajetória pioneira e a maquiagem inclusiva

Em entrevista, a maquiadora e fundadora Ruby Hammer relata sua trajetória, o pioneirismo da marca Ruby & Millie e os desafios das marcas independentes.

Lauretta Roberts
12 min de leitura
Ruby Hammer reflete sobre sua trajetória pioneira e a maquiagem inclusiva

Ruby Hammer é uma das personalidades mais conhecidas e respeitadas do mercado de beleza britânico. Presente no setor desde os anos 1990, sua trajetória como maquiadora profissional e empreendedora pioneira ajudou a moldar a maquiagem inclusiva no varejo global.

Criada na Nigéria por pais de origem bengalesa, Hammer mudou-se para o Reino Unido aos 12 anos, onde teve contato direto com a cultura jovem, a moda e o mercado cosmético britânico. Sua carreira começou no chão de loja da tradicional Harrods, em Londres, onde gastava a maior parte de seu salário em maquiagem.

Ela passou a atuar como assistente nos bastidores de desfiles e ensaios até se consolidar como uma maquiadora requisitada, reconhecida pela habilidade de trabalhar com todos os tons de pele — algo atípico na década de 1990, quando modelos negras e de minorias étnicas frequentemente precisavam levar e aplicar os próprios produtos. Mais tarde, tornou-se uma figura pública ao participar de programas de televisão como 10 Years Younger.

No fim dos anos 1990, Hammer popularizou a beleza inclusiva ao lançar a marca Ruby & Millie em parceria com a então assessora de imprensa de beleza Millie Kendall (hoje CEO do British Beauty Council). A marca levou produtos acessíveis e diversos ao grande público por meio de uma parceria inédita com a rede de drogarias Boots. As embalagens transparentes e os produtos multifuncionais da linha tornaram-se referências de design e praticidade.

O espírito de inovação da Ruby & Millie permanece vivo na Ruby Hammer Beauty, linha curada de pincéis e cosméticos lançada em 2019. Condecorada com a Ordem do Império Britânico (MBE) em 2007 por seus serviços ao setor de beleza, Hammer reflete nesta entrevista sobre suas origens, a evolução de sua carreira e os desafios do empreendedorismo independente.

Sua trajetória é amplamente reconhecida na indústria cosmética, mas vale resgatar seu histórico. Como sua infância na Nigéria com pais bengaleses moldou sua paixão pela beleza?

Tudo começou com a minha mãe. Ela era uma jovem mãe cuidando da casa sob o clima quente e úmido da Nigéria, o que exigia muito trabalho. Lembro-me claramente de vê-la aplicando maquiagem e do impacto imediato que aquilo causava. Perceber essa força transformadora e a mudança na autoestima dela foi a semente de tudo.

Nosso mundo era relativamente isolado. Não tínhamos revistas de moda espalhadas pela casa, galerias de arte ou programação regular de TV. Minha mãe era minha principal referência. Buscávamos inspiração em filmes que conseguíamos assistir: bang-bangs italianos, James Bond, produções de Bollywood e desenhos animados. Eu absorvia todo aquele glamour e cor da tela.

Você chegou ao Reino Unido aos 12 anos. Qual foi o impacto dessa mudança?

Chegar ao Reino Unido foi um choque cultural intenso, mas da forma mais incrível possível. De repente, tive acesso a um universo de estímulos visuais e culturais. Na adolescência, estudei em uma escola que permitia o uso de maquiagem. Ter a liberdade de experimentar todos os dias transformou aquele fascínio inicial em vocação.

A acessibilidade impressionava. Se eu quisesse um cosmético, bastava entrar em uma loja no centro comercial e comprar. O comércio de rua era uma revelação: além da beleza, havia música, revistas, gastronomia e, principalmente, a moda das ruas. A autoexpressão estava em toda parte, e eu finalmente podia tocar, testar e fazer parte aquilo.

Em que momento você percebeu que a beleza seria sua profissão? O início foi no setor de moda da Harrods, correto?

Muitos presumem que comecei nos balcões de cosméticos, mas eu trabalhava na seção de moda da Harrods. O grande atrativo era o desconto de funcionária, que eu usava integralmente para comprar maquiagem de marcas da época, como Biba, Miss Selfridge, Stagelight e Princess Galitzine.

Ainda assim, eu não via aquilo como uma carreira estruturada. O divisor de águas aconteceu quando comecei a prestar assistência a maquiadores em produções. Ver o funcionamento dos bastidores e dos sets fotográficos me fez entender imediatamente que aquele era o meu caminho. Abandonei a ideia de fazer um mestrado, mudei meus planos e me dediquei totalmente à maquiagem.

Você foi uma das primeiras maquiadoras a ganhar grande visibilidade pública fora dos bastidores, com presença na London Fashion Week e na TV. Essa exposição foi planejada?

Foi um processo orgânico, mas impulsionado por ambição profissional clara. Eu já tinha família e casamento para conciliar nos bastidores, mas busquei ativamente uma agência de representação. Agarava cada oportunidade para testar meus limites, movida pela paixão pelo trabalho.

A transição para a televisão aconteceu por acaso. Após uma participação no programa The Clothes Show, os produtores notaram minha capacidade de falar com a câmera e maquiar ao vivo sem perder o controle sob pressão. Essa habilidade abriu portas para o programa 10 Years Younger, seguido por produções como Style Challenge e participações em atrações como Lorraine, This Morning e transmissões da BBC.

Nos primeiros anos, sua origem étnica influenciou a recepção no mercado?

Certamente teve peso, mas nunca permiti que isso direcionasse minhas relações profissionais. Decidi conscientemente não focar nas portas fechadas nem trabalhar a partir de uma postura defensiva. Eu sabia que precisava demonstrar excelência técnica constantemente.

Mesmo hoje, modelos negras com quem trabalhei nos anos 1980 e 1990 mencionam o alívio que sentiam ao me ver no set, pois sabiam que eu teria produtos adequados e conhecimento técnico para a pele delas. Proporcionar essa segurança foi fundamental. Meu objetivo sempre foi ser a melhor maquiadora possível, independentemente de raça, idade ou origem.

Modelos negras da época relatam que precisavam levar a própria maquiagem para desfiles e ensaios. Como você lidava com a falta de produtos no mercado?

Era uma realidade dura. Muitas modelos chegavam aos bastidores de grandes desfiles com suas próprias bolsas de maquiagem, temendo ficar com a pele acinzentada ou desbotada, pois muitos profissionais não tinham insumos nem técnica para tons de pele mais escuros.

Diante da limitação de tonalidades no varejo britânico, eu aproveitava viagens aos Estados Unidos para adquirir linhas com maior variedade de pigmentos. Importar esses cosméticos deixava meu kit pesado, e eu costumava manipular fórmulas no set, misturando bases e usando batons como blush cremoso para alcançar os tons quentes e corretos. Ver o alívio das modelos ao sentarem na minha cadeira confirmava que o papel do maquiador é atender a todos com respeito e precisão técnica. Sua atuação antecipou um movimento de diversidade que marcas históricas e contemporâneas buscam consolidar no varejo global, como quando a Fashion Fair redesenha sua estratégia para atender diferentes perfis de consumidoras.

Como surgiu a parceria com Millie Kendall para o lançamento da Ruby & Millie?

Conheci a Millie na loja Harvey Nichols, em Londres, quando ela liderava o lançamento do balcão da Shu Uemura. Eu estava produzindo um editorial para a revista Elle e passei por lá para buscar produtos específicos. A dedicação e o perfeccionismo dela ao organizar a apresentação dos produtos chamaram minha atenção imediatamente. Conectamo-nos pela mesma ética de trabalho detalhista.

A criação da marca nasceu dessa afinidade profissional e da identificação de lacunas evidentes no varejo de cosméticos, especialmente quanto à oferta de maquiagens inclusivas de alto desempenho a preços acessíveis.

A Ruby & Millie antecipou pautas de diversidade e inclusão muito antes de virarem tendência. Esse posicionamento foi natural?

Foi totalmente natural. Não houve uma reunião estratégica para transformar diversidade em argumento de marketing; era a nossa prática diária. Eu trazia minha experiência editorial com múltiplos tons de pele e do lançamento da Aveda, enquanto a Millie atuava nas relações públicas do setor.

Compreendíamos a necessidade do consumidor sem precisar de longas discussões. O objetivo era simples: desenvolver maquiagem acessível e eficiente para todos os tipos de pele.

A colaboração entre duas fundadoras de origens muçulmana e judaica teve grande significado. Como vê essa parceria em retrospecto?

Na época, não enxergávamos nossa união como um manifesto político, mas como o trabalho conjunto de duas profissionais focadas em criar cosméticos inovadores. Nossas identidades culturais e religiosas eram parte de quem éramos, sem representar barreiras operacionais.

Em retrospecto, considerando o cenário geopolítico atual, reconheço a relevância daquele modelo de cooperação. A parceria demonstrou que o respeito mútuo e a convergência de propósitos superam diferenças culturais. Cabe destacar também a visão estratégica da rede Boots, que assumiu o risco comercial ao apostar em um projeto pioneiro no varejo de massa.

Qual foi a principal lição do período com a Ruby & Millie?

O aprendizado central foi compreender a dinâmica de trabalho com grandes corporações. Empreendedores e criativos costumam agir com agilidade, executando ideias rapidamente. Em uma corporação de grande porte, o ritmo de aprovação e os processos são mais lentos.

Aprendi a defender a identidade da marca dentro de uma estrutura corporativa complexa, mantendo o controle da narrativa original para evitar a descaracterização do conceito. Ao mesmo tempo, a escala de distribuição da grande varejista abriu portas de mercado inacessíveis para uma marca independente de pequeno porte.

Em 2019 você lançou a marca autoral Ruby Hammer Beauty. Quais pilares definem essa nova fase?

A Ruby Hammer Beauty foi lançada com a proposta de simplificar a rotina de beleza. Após décadas de atuação profissional, busquei criar soluções práticas, funcionais e elegantes para o cotidiano do consumidor.

O pilar central da marca é valorizar a beleza natural, sem cobrir ou alterar os traços individuais. Foco em fórmulas multifuncionais, facilidade de aplicação e versatilidade de uso para diferentes idades e tipos de pele. A beleza deve ser acessível e descomplicada.

A estratégia de portfólio da marca é bastante enxuta. Como é feita a seleção de novos lançamentos?

Optei por um catálogo enxuto para não sobrecarregar o consumidor com excesso de opções. Começamos com conjuntos de pincéis magnéticos e um kit de unhas, pois boas ferramentas facilitam a aplicação e garantem higiene e portabilidade.

Durante a pandemia de COVID-19, com o uso de máscaras faciais, pausamos o lançamento previsto de balmes labiais e direcionamos o foco para delineadores de olhos. Com a reabertura do comércio, introduzimos os balmes de tratamento com cor. Desenvolvo produtos apenas quando identifico uma necessidade real ou uma lacuna técnica, evitando seguir tendências efêmeras das redes sociais.

O desenvolvimento de produtos considera a versatilidade de aplicação para diferentes públicos?

Sim, a multifuncionalidade é um princípio fixo no desenvolvimento das fórmulas e embalagens. Busco criar itens que desempenhem mais de uma função com eficiência, como balmes labiais que podem ser aplicados como blush cremoso ou pinceis intuitivos para iniciantes e profissionais.

Essa abordagem reduz a necessidade de múltiplos produtos na nécessaire, oferecendo praticidade e flexibilidade para o consumidor contemporâneo.

Como fundadora independente de origem sul-asiática, quais são os principais desafios do mercado atual?

A gestão de uma marca autofinanciada em um mercado saturado exige disciplina operacional contínua. Como uma fundadora de origem sul-asiática que financia o próprio negócio, o desafio reside na concorrência com marcas que contam com grandes volumes de capital institucional. Nesse contexto em que o capital investidor retorna ao setor de beleza priorizando fundadores experientes e modelos de negócios sustentáveis, gerir um negócio sem aportes exige maior rigor financeiro e precisão estratégica em cada investimento.

Sem grandes orçamentos de marketing, o fundador independente assume todos os riscos financeiros e precisa comprovar viabilidade comercial constante frente a marcas apoiadas por fundos de private equity. O avanço da indústria depende de maior suporte financeiro a fundadores independentes, garantindo canais de distribuição justos e investimentos focados em inovação, integridade e valor real para o consumidor.

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