O avanço dos aportes milionários nas plataformas de agendamento da beleza
Plataformas de agendamento para salões e spas atraem aportes milionários e transformam a gestão de profissionais autônomos de beleza.
Décadas atrás, marcar um horário em um salão de beleza significava ligar para a recepção e aguardar a atendente encontrar um espaço em uma agenda de papel. Hoje, esse processo é gerido por sistemas operacionais financiados por fundos de venture capital, e investidores pagam avaliações de unicórnio por essas plataformas. O mercado global de softwares para spas e salões de beleza foi avaliado em US$ 1,6 bilhão em 2025 e deve crescer de US$ 1,8 bilhão em 2026 para US$ 3,8 bilhões até 2033. Nos últimos anos, os aplicativos que permitem agendar cortes de cabelo, tratamentos faciais ou extensão de cílios em poucos toques tornaram-se uma das áreas mais competitivas do setor de beleza, atraindo centenas de milhões de dólares e gigantes do private equity, como a KKR.
A proposta de valor dessas empresas mudou expressivamente. Criadas inicialmente como sistemas de agendamento, as plataformas expandiram sua atuação para processamento de pagamentos, folha de pagamento, concessão de crédito, marketing e sistemas de previsão baseados em inteligência artificial. Em vez de se posicionarem como simples fornecedoras de software, elas se consolidaram como a infraestrutura tecnológica de todo um ecossistema de profissionais independentes — transição que tem atrativo direto para o capital investidor.
No entanto, essa injeção de recursos também acentua a disputa pela fidelidade do cliente: o consumidor pertence à plataforma que viabiliza a reserva ou ao profissional que realiza o atendimento? Executivos da Square, Fresha e Booksy, ao lado de profissionais que dependem dessas ferramentas diariamente, descrevem uma indústria reestruturada em torno do trabalho autônomo, da receita recorrente e da conveniência contínua. Enquanto marcas de procedimentos estéticos no mercado norte-americano, como a Vitality Institute, buscam crescer sem capital externo, as empresas de software seguem uma trajetória oposta de captações intensivas. Veja o que os dados revelam sobre os vetores que impulsionam essa transformação.
O fluxo de capital no setor
O indicador mais evidente do dinamismo dessa categoria é a consolidação da Fresha como unicórnio, seguindo os passos de empresas como a Zenoti. Em maio, a plataforma com sede em Londres concluiu uma rodada de financiamento de crescimento primário de US$ 80 milhões liderada pela KKR, elevando sua avaliação de mercado para mais de US$ 1 bilhão e alcançando um total de US$ 285 milhões captados. A rodada foi sustentada por métricas operacionais sólidas: a receita recorrente anual da Fresha dobrou em 2024, atingindo US$ 43,4 milhões, com uma taxa de execução (run rate) que ultrapassou US$ 140 milhões, crescendo a um ritmo de cerca de 60% ao ano, mantendo a rentabilidade antes do aporte. Atualmente, a Fresha processa mais de 35 milhões de agendamentos por mês.
Grandes plataformas também vêm adquirindo concorrentes menores para acelerar sua expansão. A Booksy seguiu trajetória semelhante ao adquirir a empresa francesa de gestão e agendamento para salões Kiute em 2021. Com sede em Chicago e fundada na Polônia, a Booksy levantou mais de US$ 70 milhões apenas em sua rodada Série C, apoiada por investidores como Cat Rock Capital, Sprints Capital, OpenOcean, Piton Capital, VNV Global, Enern, Kai Hansen, Zach Coelius e Manta Ray Ventures. Estimativas de mercado indicam que o montante acumulado pela empresa em mais de dez rodadas chega a US$ 269 milhões.
Já a GlossGenius, rebatizada como Genius AI ao expandir sua atuação além da beleza para o mercado geral de serviços, concluiu recentemente uma rodada de US$ 44 milhões liderada pela Lux Capital, sob uma avaliação de US$ 1,15 bilhão. Com isso, a empresa acumula mais de US$ 125 milhões captados desde o seu lançamento, em 2016.
“A maior mudança estrutural é que o profissional agora pode ser o seu próprio negócio. Há uma década, gerenciar a própria operação envolvia uma enorme barreira administrativa”, afirmou Danielle Cohen-Shohet, CEO da Genius AI, em entrevista à publicação BeautyMatter. Softwares de agendamento e pagamentos eliminaram esse obstáculo operacional.
Os investidores apostam em uma mudança profunda na dinâmica de trabalho dos profissionais de beleza, movimento que acompanha a expansão observada no consumo do setor, como aponta o crescimento das vendas de beleza nos EUA. Neil Friedman, gerente-geral da Booksy nos Estados Unidos, destaca a dimensão dessa transição: “A maior mudança estrutural que documentamos é uma onda massiva de independência”. Segundo relatório de tendências da Booksy citado por Friedman, profissionais que alugam cadeiras ou operam em suítes individuais para salões (salon suites) já representam mais de 50% dos profissionais de beleza nos EUA, impulsionados por um crescimento de 150% na oferta desse modelo de espaço na última década. Essa nova geração de empreendedores autônomos precisa de ferramentas digitais para assumir as tarefas que antes exigiam recepção, contabilidade e equipe de marketing — e está disposta a pagar por esses serviços.
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