Lily & Beauty volta ao lucro na China com cortes e marcas internacionais
A operadora chinesa Lily & Beauty voltou ao lucro no 1º semestre de 2026 com corte de custos e novos acordos de distribuição de marcas internacionais.
A operadora chinesa de e-commerce e gestão de marcas de beleza Lily & Beauty divulgou seu relatório financeiro referente ao primeiro semestre de 2026, registrando um lucro líquido atribuível à empresa controladora de 22,52 milhões de yuans. A recente divulgação dos resultados financeiros da Lily & Beauty, que registrou lucro líquido de 22,5 milhões de yuans no primeiro semestre, encerrou uma sequência de dois anos seguidos de prejuízos anuais.
O resultado trouxe um alívio temporário ao mercado e permitiu à companhia preservar sua imagem perante investidores.
Para demonstrar confiança, a empresa anunciou a distribuição de dividendos intermediários no valor de 0,25 yuan para cada 10 ações, repassando cerca de 45% do lucro líquido do semestre aos acionistas.
Esta foi a primeira vez que a companhia pagou dividendos no meio do ano desde sua abertura de capital (IPO), uma medida vista como um aceno de boa-fé ao mercado.
No entanto, a reação dos investidores permaneceu fria: as ações voltaram a cair no dia do anúncio, refletindo a postura cautelosa do mercado quanto ao crescimento sustentável da operadora.
Lucro obtido com redução rigorosa de custos
No primeiro semestre de 2026, a Lily & Beauty acumulou uma receita de 894 milhões de yuans, alta de 7,61% na comparação anual — um desempenho modesto para o setor de parceiras de e-commerce (TPs, operadoras terceirizadas que gerenciam lojas virtuais para marcas de beleza na China).
Segundo o relatório financeiro, o lucro total da empresa saltou de um prejuízo de 40,50 milhões de yuans no mesmo período do ano anterior para um resultado positivo de 34,21 milhões de yuans, representando uma recuperação contábil superior a 74 milhões de yuans.
Ao detalhar os números, percebe-se que o aumento das vendas contribuiu pouco para essa virada.
O grande motor da recuperação foi a contenção expressiva de despesas operacionais. Os gastos com vendas caíram 7,55%, para 260 milhões de yuans, enquanto as despesas administrativas recuaram 18,42%, fixando-se em 39,95 milhões de yuans. Juntas, essas duas frentes geraram uma economia superior a 30 milhões de yuans.
As despesas com pessoal caíram 25%, passando de 77,98 milhões para 58,40 milhões de yuans, e os custos com consultorias externas foram reduzidos em mais de 60%.
Essa política de redução de custos pressionou positivamente a margem bruta. Como o custo das mercadorias vendidas cresceu 4,80%, abaixo do avanço de 7,61% da receita, a margem bruta consolidada subiu de 39,73% para 41,28%, gerando margem de lucro por meio de eficiência operacional.
No lado das receitas, a principal novidade veio da expansão dos negócios de representação e distribuição exclusiva de marcas internacionais (conhecidos no setor como master distribution).
Iniciada em 2024, a divisão de distribuição exclusiva cresceu mais de 200% no primeiro semestre de 2026. O destaque do período foi a marca sul-coreana de cuidados com a pele d'Alba: ao focar no nicho de primers faciais iluminadores e evitar a concorrência direta no saturado segmento de loções, a marca ultrapassou 160 milhões de yuans em Volume Bruto de Mercadorias (GMV) no primeiro ano de operação.
O modelo de distribuição exclusiva, porém, exige uma dinâmica diferente da prestação de serviços tradicional. Anteriormente, a Lily & Beauty atuava apenas na gestão de vendas para terceiros, cobrando comissões e margens de intermediação. Na distribuição exclusiva, a operadora precisa comprar antecipadamente todo o estoque e estruturar canais de distribuição online e offline, assumindo a introdução completa da marca no mercado chinês.
Em junho de 2026, a empresa assinou um contrato em Londres para se tornar distribuidora online exclusiva na China do Royal Botanic Gardens, Kew. Posteriormente, firmou parcerias com as marcas europeias 7th Heaven, Endocare e Geomar, expandindo sua atuação de cosméticos faciais para cuidados corporais e fragrâncias naturais.
Essa rápida expansão, no entanto, trouxe impactos ao capital de giro. A compra de estoques comprometeu os recursos em caixa: o fluxo de caixa operacional líquido desabou 72%, caindo de 63 milhões para 17,55 milhões de yuans, enquanto o saldo líquido de investimentos passou de 127 milhões negativos para um déficit de 355 milhões de yuans.
A administração explicou no balanço que essa variação decorre diretamente do aumento das compras de produtos para abastecer a rede de distribuição exclusiva.
Ao mesmo tempo, a empresa promoveu uma reestruturação em seu portfólio de marcas próprias. Após anos operando múltiplos rótulos com baixo retorno sobre o investimento — fator citado no balanço de 2025 como um dos principais gargalos de rentabilidade —, a Lily & Beauty encerrou a maioria das marcas próprias para focar recursos em duas frentes: Beyangler (nutricosméticos e suplementos anti-idade) e Yurongchu (cuidados para peles sensíveis).
Negócio principal de e-commerce continua sob pressão
Apesar do crescimento da divisão de distribuição, a operação tradicional em plataformas de e-commerce continua enfrentando retração.
No primeiro semestre, as vendas no Tmall (plataforma de comércio eletrônico do grupo Alibaba) caíram 0,57%, somando 513 milhões de yuans, enquanto o canal Tmall Global registrou queda de 8,86%, com receita de 24 milhões de yuans.
Embora canais emergentes como Douyin (versão chinesa do TikTok) e Pinduoduo tenham crescido 23,76%, somando 357 milhões de yuans, esse volume ainda não é suficiente para compensar as perdas na plataforma principal.
Esse cenário reflete uma transformação mais ampla na indústria da beleza chinesa. Marcas globais como L'Oréal, Lancôme e Sulwhasoo vêm reassumindo a operação direta de suas lojas virtuais, reduzindo a demanda por intermediários terceirizados.
Com o esgotamento do crescimento do tráfego em marketplaces tradicionais como o Tmall, plataformas baseadas em conteúdo como Douyin e Xiaohongshu (rede social de estilo de vida e comércio social) redefiniram a dinâmica de vendas, tornando a gestão tradicional de e-commerce menos diferenciada no mercado.
Concorrentes do setor adotaram caminhos distintos. Em 2025, a operadora Ruoyuchen registrou mais de 52% de suas receitas vindas de marcas próprias, atingindo 3,43 bilhões de yuans em vendas e 194 milhões de yuans de lucro líquido. Já a Yiwangyichuang manteve sua rentabilidade com base na prestação de serviços de alto valor, gerando 1,07 bilhão de yuans em receita e 108 milhões de yuans em lucro líquido.
Em comparação, o volume gerado pelas novas frentes da Lily & Beauty ainda é pequeno para compensar o encolhimento de seu negócio principal, que já movimentou cerca de 3 bilhões de yuans anuais.
Outro ponto de atenção no balanço foi o investimento em pesquisa e desenvolvimento (P&D). Os aportes em P&D despencaram 61,9% no semestre, somando apenas 4,5 milhões de yuans, retração explicada na demonstração financeira pela redução de pessoal na área.
Como as marcas próprias Beyangler e Yurongchu ainda estão em estágio inicial de consolidação — com os produtos mais vendidos em suas lojas oficiais no Tmall registrando menos de mil unidades mensais —, a redução de investimentos em inovação em plena fase de desenvolvimento representa um risco adicional.
A empresa também enfrenta desafios de governança corporativa. Em julho, a Comissão Reguladora de Valores Mobiliários de Xangai e a Bolsa de Valores de Xangai emitiram cartas de advertência e censura pública contra a Lily & Beauty e seis de seus executivos. As autoridades constataram que, entre 2021 e 2024, a companhia utilizou 4,8 milhões de yuans em recursos corporativos para arcar com os honorários advocatícios do processo de divórcio do acionista controlador, Huang Tao, caracterizando uso indevido de fundos, além de falhas na divulgação de garantias não autorizadas e transações com partes relacionadas.
Em uma perspectiva histórica de longo prazo, o faturamento da Lily & Beauty encolheu de 1,855 bilhão de yuans no primeiro semestre de 2021 para 894 milhões de yuans no mesmo período de 2026, reduzindo a empresa a menos da metade de seu tamanho original. Além disso, o lucro semestral de 22,52 milhões de yuans cobre menos de um terço do prejuízo de 79,99 milhões registrado ao longo de 2025.
No segundo trimestre de 2026, a receita avançou apenas 1,87% na comparação anual, sinalizando desaceleração do ritmo de recuperação.
Embora a volta ao lucro seja um fato concreto, a consolidação da virada financeira ainda depende do desempenho da distribuição exclusiva no segundo semestre, da estabilização das vendas no Tmall e da recuperação do fluxo de caixa operacional.
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