17 de agosto de 2026

Lily & Beauty reverte prejuízo e lucra 22,5 milhões de yuans

Após prejuízo em 2025, a gigante chinesa de e-commerce de beleza Lily & Beauty voltou a lucrar no 1º semestre de 2026 impulsionada por distribuição exclusiva.

Huai Jun
Por Huai Jun
8 min de leitura
Lily & Beauty reverte prejuízo e lucra 22,5 milhões de yuans

Em 14 de agosto, a Lily & Beauty, uma das principais operadoras chinesas de comércio eletrônico e gestão de marcas de beleza (conhecidas no setor como parceiras de e-commerce ou TPs), divulgou seu relatório financeiro referente ao primeiro semestre de 2026. No período, a receita atingiu 894 milhões de yuans, representando uma alta de 7,61% em comparação ao mesmo período do ano anterior. O lucro total alcançou 34,20 milhões de yuans, revertendo o prejuízo de 40,50 milhões registrado no primeiro semestre de 2025. O lucro líquido atribuível aos acionistas da controladora foi de 22,52 milhões de yuans, ante uma perda de 32,76 milhões de yuans um ano antes, enquanto o lucro líquido ajustado (excluindo itens não recorrentes) somou 23,21 milhões de yuans, consolidando a virada operacional da companhia.

Apenas cinco meses antes, o cenário aparente no balanço anual de 2025 era bem diferente. Naquele exercício, a empresa havia reportado receita de 1,692 bilhão de yuans — uma queda anual de 2,08% — e um prejuízo líquido atribuível de 79,99 milhões de yuans.

Passar de um prejuízo anual próximo a 80 milhões de yuans para um lucro semestral superior a 22 milhões indica uma mudança relevante de trajetória em um mercado altamente competitivo, como o da indústria da beleza.

Virada estratégica: da contenção defensiva à expansão ativa

Em seu relatório de 2025, a Lily & Beauty apontava para o ritmo moderado de recuperação do consumo na China e para as fortes pressões operacionais sobre o setor. O encerramento de acordos e a redefinição de modelos de negócios por marcas parceiras continuavam pressionando o faturamento da operadora. Em um cenário de intensa reconfiguração dos canais digitais — onde quase 10 mil marcas de beleza deixam o e-commerce no Sudeste Asiático devido ao aumento da concorrência e custos —, a empresa optou por focar na eficiência e no enxugamento de custos.

Como resposta inicial, a Lily & Beauty reestruturou seu portfólio de marcas próprias, reduzindo a escala daquelas que não atendiam à demanda do mercado ou à nova diretriz estratégica. Ao final de 2025, os estoques caíram 4,31% em relação a 2024, situando-se em 417 milhões de yuans.

Ao entrar em 2026, a avaliação da empresa era de que o mercado consumidor chinês vivia um período de ajuste aprofundado, com desempenho heterogêneo entre as marcas. Em abril, a Lily & Beauty lançou um plano de ação focado em melhoria de qualidade, ganho de eficiência e retorno aos acionistas.

A partir de então, a empresa estruturou suas operações em três frentes: estabilização do varejo de e-commerce tradicional, foco em marcas próprias sustentáveis — abandonando a dependência de investimento ostensivo em tráfego de curto prazo — e expansão do modelo de representação e distribuição exclusiva de marcas emergentes.

Essa mudança refletiu-se nos resultados financeiros. O resultado antes de impostos saltou de um prejuízo de 40,50 milhões de yuans no primeiro semestre de 2025 para um lucro de 34,20 milhões de yuans no mesmo período de 2026. A recuperação de mais de 74 milhões de yuans foi impulsionada pela combinação de ampliação da margem bruta, redução de despesas operacionais e menor necessidade de provisões para perda de ativos.

Modelo de representação exclusiva: de teste inicial a motor de crescimento

Para viabilizar a mudança de patamar, a empresa necessitava de um motor de crescimento. Enquanto o e-commerce tradicional garantia estabilidade e o desenvolvimento de marcas próprias seguia em validação, o segmento de representação exclusiva (gerenciamento total de marca e distribuição) acelerou de forma expressiva.

Iniciada em 2024, a atuação da Lily & Beauty como distribuidora e representante master de marcas estrangeiras teve um forte salto no primeiro semestre de 2026. A receita dessa unidade cresceu mais de 200% em relação ao mesmo período do ano anterior. Após responder por mais de 8% do faturamento em 2025, a unidade assumiu o papel de principal alavanca de crescimento da operadora.

A marca Wence exemplifica a aplicação dessa estratégia.

A Lily & Beauty adotou para a marca um foco em produto-chave, posicionando seu primer hidratante com efeito glow para evitar a concorrência direta no saturado segmento de loções faciais. Em apenas um ano de lançamento, o volume bruto de mercadorias (GMV) da Wence ultrapassou 160 milhões de yuans. Em maio de 2026, as vendas nos canais físicos superaram todo o acumulado de 2025, registrando alta de 142% ano a ano. Durante o festival de compras 618, a primeira onda de vendas no Douyin (a versão chinesa do TikTok) ultrapassou 11 milhões de yuans.

O desempenho serviu para validar a metodologia de construção de marca a partir de produtos estratégicos, criando um modelo replicável para outros contratos de representação.

Paralelamente, a Lily & Beauty expandiu sua atuação com marcas europeias. Em junho de 2026, a empresa assinou um contrato tripartite na sede do Conselho Empresarial China-Reino Unido, em Londres, tornando-se a distribuidora online exclusiva para os produtos licenciados dos Jardins Botânicos Reais de Kew na China. Atualmente, o portfólio europeu da empresa abrange segmentos de cuidados funcionais com a pele, cuidados corporais e fragrâncias naturais.

Diferentemente do modelo tradicional de parceiro de e-commerce (TP), focado essencialmente na execução de vendas, a representação exclusiva abrange desde o posicionamento inicial do produto e marketing de conteúdo até a operação em plataformas digitais como Tmall e Douyin e o desenvolvimento de redes de distribuição offline.

Qualidade operacional: da expansão de escala ao ganho de rentabilidade

No primeiro semestre de 2026, além do avanço de 7,61% na receita para 894 milhões de yuans e do lucro líquido de 22,52 milhões de yuans, o balanço indicou ganhos na eficiência de processos.

A virada de 75,28 milhões de yuans no resultado operacional foi sustentada por três pilares: o aumento no volume da unidade de representação gerou um ganho bruto adicional de 39,16 milhões de yuans; as despesas com vendas e administrativas foram reduzidas em 30,28 milhões de yuans; e a provisão para redução ao valor recuperável de estoques diminuiu 9,39 milhões de yuans.

Em termos de eficiência operacional, as despesas de vendas caíram 7,55% e as despesas administrativas recuaram 18,42% em relação ao mesmo período do ano anterior. A margem bruta consolidada subiu de 39,73% para 41,28%, registrando avanço de 1,55 ponto percentual.

A redução de custos operacionais está associada à adoção de tecnologias de inteligência artificial. A Lily & Beauty passou a utilizar IA generativa de imagens na criação de materiais visuais e peças publicitárias, além de implementar apresentadores virtuais em transmissões ao vivo no e-commerce para cobrir horários de menor audiência. Em fevereiro de 2026, a empresa recebeu certificações de capacidade digital e experiência de serviços concedidas pelo ecossistema Tmall da Alibaba.

Apesar da recuperação financeira, a operação enfrenta desafios contínuos. O fluxo de caixa operacional líquido recuou 72,3% no semestre, situando-se em 17,55 milhões de yuans, refletindo o maior comprometimento de capital de giro necessário para expandir os negócios de representação exclusiva. No mesmo período, as provisões para impairment de estoques e ativos totalizaram 27,16 milhões de yuans.

Além disso, em julho, a empresa recebeu uma carta de advertência da Comissão Reguladora de Valores Mobiliários de Xangai por divergências de governança, incluindo a não divulgação de garantias prestadas a terceiros, omissão de transações com partes relacionadas e o pagamento de honorários advocatícios pessoais de seu controlador.

A capacidade de manter a disciplina no fluxo de caixa e o alinhamento com as normas de governança corporativa será determinante para a sustentabilidade desse ciclo de recuperação nos próximos trimestres.

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