Pressionada por acionistas, Ashland avalia venda integral e atrai fundos globais
A gigante de ingredientes Ashland avalia a venda integral do negócio após pressão de investidores ativistas, atraindo fundos de private equity.
A multinacional de especialidades químicas e ingredientes Ashland está avaliando uma possível venda integral de suas operações. A movimentação ocorre após a empresa receber demonstrações de interesse de compra de múltiplos investidores e contratar os bancos de investimento Citigroup e Lazard para atuar como assessores financeiros na transação, segundo a Bloomberg.
Entre os potenciais compradores interessados na gigante de insumos estão grandes gestoras de private equity, como Apollo Global Management, Carlyle Group e Advent International. O grupo Standard Industries, que já detém quase 10% de participação na empresa e é um de seus maiores acionistas, também consta na lista de potenciais adquirentes. Após a divulgação das conversas de mercado, as ações da Ashland registraram alta aproximada de 6%.
Impasse com acionistas e reestruturação do conselho
Fundada em 1924, a Ashland iniciou suas atividades no setor petroquímico e de lubrificantes antes de focar em especialidades químicas de alto valor agregado. Atualmente, a fornecedora é uma das principais parceiras da indústria global de beleza, provendo polímeros, modificadores de reologia e ativos patenteados presentes nos portfólios de grandes grupos multinacionais e marcas emergentes. No setor de cuidados pessoais, a inovação em ingredientes ativos serve de suporte fundamental para os lançamentos das marcas — a exemplo do avanço verificado na entrada da Tower 28 no mercado de bases com foco em peles sensíveis, segmento no qual o desempenho da fórmula depende diretamente da estabilidade dos insumos.
A pressão por mudanças estruturais ganhou força em abril, após a divulgação de resultados financeiros abaixo do esperado. O fundo ativista Ancora Holdings aproveitou a desvalorização dos papéis para aumentar sua posição acionária e, em junho, exigiu publicamente que a companhia iniciasse um processo de venda. A Ancora projetava que a alienação das operações poderia gerar um prêmio de valorização de cerca de 30% aos acionistas.
Pouco depois, a gestora de hedge funds Cruiser Capital Advisors alinhou-se à Ancora. Ambas emitiram um ultimato ao conselho de administração da Ashland, ameaçando iniciar uma disputa por procuração (proxy fight) caso não houvesse avanços concretos até o período de indicação de conselheiros em setembro.
Diante do cerco dos investidores, a administração da Ashland selou um acordo de conciliação com a Ancora no final de julho. A empresa nomeou dois novos conselheiros independentes — Peter Thomas, ex-presidente do conselho da fabricante de revestimentos funcionais Ferro Corporation, e Allen Spizzo, ex-diretor financeiro da Hercules Incorporated — e criou um comitê consultivo focado em alocação de capital. Logo em seguida, a Ashland anunciou o pagamento de dividendos trimestrais em dinheiro, sinalizando a implementação imediata das diretrizes do novo comitê.
Desempenho operacional e apetite dos compradores
A busca por alternativas estratégicas consolida um longo ciclo de simplificação de portfólio. Em 2017, a Ashland cindiu a marca de lubrificantes Valvoline; em 2022, vendeu sua divisão de adesivos de alta performance para a francesa Arkema; e, posteriormente, alienou os negócios de nutracêuticos e fixadores de fragrâncias para focar em especialidades de alta margem.
Hoje, a Ashland atua em quatro unidades de negócios:
- Life Sciences: Fornece excipientes e ingredientes para os setores farmacêutico e agroquímico.
- Personal Care: Produz ativos e ingredientes funcionais para cuidados com a pele e cabelos.
- Specialty Additives: Atende mercados industriais, como construção civil e automotivo.
- Intermediates: Fabrica produtos químicos intermediários, como o 1,4-butanodiol (BDO).
No terceiro trimestre fiscal de 2026 (encerrado em 30 de junho de 2026), a divisão de Life Sciences manteve a liderança de crescimento da empresa, registrando receita de US$ 180 milhões (+11% em relação ao mesmo período do ano anterior) e EBITDA ajustado de US$ 60 milhões (+11%), com margem EBITDA de 33%, impulsionada pela demanda contínua da indústria farmacêutica.
A divisão de Personal Care obteve receita de US$ 155 milhões no período (+5%), registrando margem operacional de 29%. O grande destaque do segmento foi a linha de biofuncionais (Biofunctionals), que cresceu quase 30%, impulsionada pela alta procura por ativos de skincare avançado.
Por outro lado, a unidade de Specialty Additives registrou faturamento de US$ 136 milhões, pressionando as margens no curto prazo, enquanto a divisão de Intermediates gerou US$ 37 milhões em receitas. No ano fiscal de 2025, a receita total da Ashland recuou de US$ 2,113 bilhões para US$ 1,824 bilhão, reflexo direto do desinvestimento planejado em ativos não prioritários.
Analistas de mercado estimam que uma potencial transação de compra da Ashland deva ser precificada entre 13,5x e 15x o EV/EBITDA, o que representaria um valor por ação entre US$ 90 e US$ 100.
Os potenciais compradores dividem-se em dois perfis: fundos de private equity focados em otimização operacional e geração de caixa previsível, e investidores estratégicos como a Standard Industries. A Standard Industries já possui histórico no setor de especialidades químicas, tendo fechado o capital da W.R. Grace em 2021 por aproximadamente US$ 7 bilhões. Uma eventual venda da Ashland pode alterar os equilíbrios de mercado no fornecimento global de ingredientes cosméticos e excipientes farmacêuticos.
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