17 de agosto de 2026

Protetor solar em creme perde espaço na China com avanço dos sprays

Consumidores chineses trocam filtros solares em creme por sprays práticos e acessíveis, transformando a dinâmica da fotoproteção no país.

China Business Daily
Por China Business Daily
8 min de leitura
Protetor solar em creme perde espaço na China com avanço dos sprays

Em pleno pico do verão no hemisfério norte, os balcões de cosméticos nos shopping centers de Pequim — como Chaoyang Joy City, Sanlitun e Hopson One — registram alta movimentação, mas com uma mudança clara nas preferências dos consumidores. Os filtros solares tradicionais em creme perderam a posição central nos balcões para os sprays protetores, que se tornaram o item mais procurado pelos jovens. No primeiro andar de uma loja no Chaoyang Joy City, vendedoras repõem provadores acumulando pilhas de sprays, enquanto os cremes ocupam apenas duas fileiras, refletindo uma queda acentuada na procura pelas versões em creme nesta temporada.

Essa mudança não significa que os consumidores chineses abandonaram a fotoproteção. O foco evoluiu da simples prevenção do bronzamento para o combate ao fotoenvelhecimento, trocando a obsessão por altos índices de proteção (SPF/Fator de Proteção Solar) pelo conforto sensorial na pele. Contudo, ao mesmo tempo em que buscam formatos mais práticos, muitos consumidores ainda cometem erros fundamentais de uso, comprometendo a eficácia da proteção.

O desaquecimento dos cremes tradicionais

O Relatório de Qualidade e Segurança de Cosméticos de Proteção Solar de 2026 projeta que o mercado chinês de fotoproteção ultrapassará 32 bilhões de yuan (cerca de US$ 4,4 bilhões) este ano, com vendas online crescendo mais de 10% em relação ao ano anterior. No entanto, apesar da expansão do setor, os cremes solares tradicionais enfrentam dificuldades.

Vendedoras de redes multimarcas de beleza relatam uma mudança direta no comportamento dos clientes: no lugar de perguntar primeiro o valor do SPF, a prioridade passou a ser a textura, questionando se o produto é oleoso, se deixa resíduos brancos ou se espalha com facilidade.

Dados da plataforma de inteligência de mercado Jiuqian Data, baseados na análise de mais de 3,29 milhões de avaliações de consumidores, confirmam a mudança. Cerca de 22% do uso de protetores solares concentra-se no deslocamento matinal diário para o trabalho e em rotinas urbanas. Diante de exposições fragmentadas ao sol durante o trajeto até o escritório ou curtas caminhadas, o público busca praticidade que não estrague a maquiagem, dispensando coberturas pesadas destinadas a praias.

O consumidor tornou-se pragmático. Dados do setor indicam que produtos de fotoproteção de alto padrão (acima de 149 yuan) registraram queda de 64% no faturamento ano a ano, encolhendo sua fatia de mercado de 33,67% para 12,09%. Por outro lado, itens de entrada (abaixo de 50 yuan) cresceram 107% em vendas. No primeiro trimestre, o volume total de vendas da categoria caiu 18,4%, uma queda superior à redução do faturamento (8,3%), indicando menor frequência e menor volume por compra.

Essa busca por fórmulas leves e funcionais reflete transformações globais da indústria, como as sete tendências de negócios observadas na Cosmoprof North America, nas quais a eficiência da formulação e a experiência do consumidor ganham prioridade sobre alegações genéricas de marketing.

Zhou Mingyuan, ex-pesquisador de centro de avaliação técnica de segurança cosmética na China, analisa que o setor transita de um mercado guiado por funcionalidade para um guiado por experiência do consumidor. Quando o fator SPF50+ vira padrão básico, a especificação técnica perde o poder de precificação premium. O consumidor deseja conforto e eficiência, evitando sensações pesadas na pele.

A ascensão dos sprays protetores

Em um cenário de retração nos cremes, os sprays protetores tornaram-se a principal taxa de crescimento no segmento. No primeiro trimestre de 2026, as vendas de cremes solares totalizaram 2,847 bilhões de yuan, representando uma queda anual de 9,5% em faturamento e 20,4% em volume. Em contrapartida, os sprays protetores atingiram 105 milhões de yuan nos principais canais de e-commerce na China. Embora representem apenas 3,6% de fatia de mercado, registraram alta de 40,6% no faturamento e de 48,4% no volume de vendas, com preço médio de 68,2 yuan.

Nas lojas físicas da rede de farmácias e beleza Watsons, em Pequim, os sprays dominam as prateleiras de destaques de verão. Os produtos mais procurados possuem duas características centrais: secagem rápida sem manchar roupas e sensação tátil extremamente leve. O formato passou a ser adotado inclusive pelo público masculino, que valoriza a aplicação rápida, e por profissionais de escritório para retoques ao longo do dia.

O mercado intermediário (de 89 a 149 yuan) em sprays expandiu sua fatia de 20,42% para 37,88%, demonstrando a disposição do consumidor em pagar por praticidade na reaplicação. Por outro lado, sprays acima de 149 yuan viram seu faturamento recuar 64%. No ranking de marcas, a Mistine lidera com 24,09% de participação, enquanto marcas tradicionais como Anessa e Narris registraram recuos de 6,8% e 25% em faturamento, respectivamente. Já marcas emergentes como Babib e Banana Boat registraram crescimentos expressivos de 819% e 364%.

He Jing, ex-formuladora de P&D em multinacional de beleza, destaca que o grande diferencial do spray é incentivar a frequência de uso: muitos consumidores deixam cremes parados por desconforto sensorial, enquanto o spray facilita a reaplicação diária.

Alertas de especialistas e mitos do consumo

Apesar da popularidade dos sprays, especialistas apontam riscos e equívocos frequentes dos consumidores no uso da fotoproteção.

O primeiro mito é a crença de que quanto maior o SPF, melhor a proteção. Em termos de eficácia contra radiação UVB, o SPF 15 bloqueia cerca de 93%, o SPF 30 bloqueia 96,7% e o SPF 50 bloqueia 98%. A diferença de proteção entre SPF 30 e SPF 50 é marginal. Dermatologistas do Hospital Peking Union Medical College alertam que o uso desnecessário de fatores altíssimos no cotidiano urbano pode comprometer a barreira cutânea e causar acne ou alergias, recomendando SPF 25–30 e PA+++ para a rotina diária de trabalho, reservando SPF 50+ e PA++++ para exposição intensa ao ar livre ou praia.

O segundo equívoco diz respeito à quantidade de aplicação. A maioria das pessoas aplica apenas de 25% a 50% da quantidade recomendada pelos padrões regulatórios, que é de 2 miligramas por centímetro quadrado (cerca de 1 grama para o rosto, equivalente ao tamanho de uma moeda). Com metade da dosagem recomendada, um protetor SPF 50 atinge uma proteção real equivalente a aproximadamente SPF 7.

O terceiro ponto envolve o uso dos sprays. Devido à volatilidade do aerossol, é difícil atingir a dosagem necessária de 2 mg/cm², gerando uma falsa sensação de proteção. Além disso, existe o risco de inalação de micropartículas. O Centro Nacional de Controle de Medicamentos e Alimentos da China contraindica o uso de sprays solares aerossóis em crianças devido ao risco respiratório. Testes de exposição mostram aumento significativo de partículas inaláveis em ambientes fechados após o uso de spray, sendo recomendável aplicar o produto primeiro nas mãos antes de levar ao rosto.

Por fim, os cosméticos multifuncionais "2 em 1" (que combinam base de maquiagem e proteção solar) dificilmente entregam a proteção rotulada. Fórmulas focadas em acabamento estético e cobertura de maquiagem não foram desenvolvidas para formar a película protetora contínua necessária para bloquear a radiação UV de forma eficiente quando aplicadas na fina camada usual de maquiagem.

Desafios de conformidade e segmentação do mercado

As ambiguidades de consumo são acompanhadas por desafios regulatórios no setor. Relatórios de fiscalização divulgados pela Administração Nacional de Produtos Médicos da China (NMPA) indicam que quase metade dos lotes de cosméticos reprovados em inspeções recentes pertencia à categoria de protetores solares. Especialistas apontam que os custos e prazos de homologação de registros especiais de fotoproteção levam algumas empresas a falhar no controle de qualidade e rotulagem de ativos.

Dados da plataforma de registros empresariais Qichacha indicam uma desaceleração no número de novos entrantes no setor de fotoproteção na China. Ao mesmo tempo, o varejo registra um movimento consistente em direção à segmentação especializada. Em lojas de redes como Sephora, protetores solares físicos voltados para crianças (com apelo livre de álcool e fragrâncias) e linhas destinadas a peles sensíveis ganham espaço nas prateleiras.

O mercado de fotoproteção caminha para a especialização por perfil de pele, faixa etária e cenário de uso. As oportunidades de crescimento tendem a favorecer marcas capazes de conciliar praticidade de aplicação, formulações confortáveis e conformidade regulatória rigorosa.

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