Alimentos funcionais no Japão: lançamentos caem, mas mercado cresce 4%
Mesmo com regras mais rígidas e menos lançamentos, o mercado japonês de alimentos funcionais deve crescer 4,1% e atingir US$ 4,91 bilhões no ano fiscal de 2025.
No ano fiscal de 2025, o volume de novos Alimentos com Alegações Funcionais (FFC, na sigla em inglês) que chegaram às farmácias e supermercados do Japão registrou uma queda acentuada. Apesar disso, o valor total do mercado cresceu 4%, segundo um novo relatório do setor.
A Agência de Assuntos do Consumidor do Japão (CAA), órgão governamental que supervisiona os FFCs e outros produtos de saúde funcional, recebeu 1.176 novas notificações no ano fiscal de 2025. O número representa uma retração de 26% em comparação ao ano anterior, após atingir o pico de 1.584 notificações no ano fiscal de 2024.
O declínio é reflexo do endurecimento da fiscalização regulatória após a crise sanitária de 2024 provocada pelo extrato de levedura de arroz vermelho (beni koji). A análise consta no relatório In-Depth Analysis Report on Foods with Functional Claims notified in FY2025, elaborado por Hisaaki Kato, CEO da consultoria regulatória japonesa SmoothLink.
"A característica mais marcante do setor de FFC no ano fiscal de 2025 foi o aperto substancial das regulamentações, possivelmente o mais rigoroso desde a criação do sistema. As empresas foram forçadas a estabelecer uma estrutura integrada de conformidade, abrangendo desde evidências científicas até a gestão de riscos", destacou Kato. "Essa mudança regulatória resultou em uma queda expressiva nas novas notificações."
O sistema FFC foi implementado no Japão em 2015 como parte da estratégia econômica do ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, o "Abenomics". Para dinamizar o mercado, o modelo dispensava aprovação prévia do governo: as empresas podiam estampar benefícios de saúde na embalagem desde que notificassem a CAA apresentando comprovação científica dos ingredientes.
No entanto, após o escândalo de segurança com a levedura de arroz vermelho em 2024, a CAA impôs critérios mais exigentes para aceitar notificações, passando a exigir a conformidade com as diretrizes PRISMA 2020 para revisões sistemáticas. O órgão também tornou obrigatórios o cumprimento de Boas Práticas de Fabricação (GMP), a notificação de incidentes à saúde e o envio contínuo de atualizações sobre descobertas científicas e de segurança.
"A partir de abril de 2025, fatores como a exigência do PRISMA 2020 para revisões sistemáticas, formulários adicionais, a renovação de bancos de dados e prazos de análise prolongados acumularam-se, fazendo os fabricantes agirem com extrema cautela", explicou Kato. O modelo padronizado que utilizava revisões sistemáticas perdeu ritmo devido ao peso documental e ao risco de reprovação no controle de conformidade.
Cancelamentos superaram novos registros pela primeira vez
A rigidez das regras levou as empresas a retirarem voluntariamente mais de 1.923 notificações existentes de FFC no ano fiscal de 2025. Pela primeira vez desde a criação da categoria, o volume de cancelamentos superou o de novos registros.
Kato explica que essa onda de desistências foi uma resposta direta às autoinspeções obrigatórias para verificar o cumprimento rigoroso das determinações da CAA.
O que está impulsionando o crescimento do mercado?
Apesar do menor volume de lançamentos, estimativas da empresa de pesquisa Fuji Keizai, citadas por Kato, indicam que o mercado de FFC deve expandir 4,1% no ano fiscal de 2025, alcançando 773,5 bilhões de ienes (aproximadamente US$ 4,91 bilhões).
A resiliência do setor fundamenta-se em três pilares principais:
Em primeiro lugar, enquanto a demanda por suplementos em formato de comprimidos ou cápsulas segue enfraquecida por conta das incertezas da crise do arroz vermelho, o consumo de alimentos funcionais convencionais continua aquecido. Iogurtes voltados ao controle da glicemia e chás com apelo de redução de gordura destacam-se nas vendas. Essa busca por produtos com benefícios à saúde conversa com um movimento mais amplo de integração entre nutrição e bem-estar, em uma lógica alinhada à psiquiatria nutricional e ao cuidado preventivo.
Em segundo lugar, ganham espaço os produtos multifuncionais, que combinam diferentes benefícios em um único item, como alegações simultâneas de saúde intestinal e queima de gordura.
Por fim, os FFCs mantêm preços mais acessíveis em comparação a outras categorias de produtos funcionais regulamentados no Japão, como os Alimentos para Uso Especificado de Saúde (FOSHU), o que atrai consumidores atentos ao custo-benefício.
Na avaliação de Kato, o setor transita de uma fase de "expansão quantitativa" para a "evolução qualitativa". Em um mercado japonês em reestruturação, no qual até gigantes locais como a Shiseido buscam focar em eficiência operacional, a capacidade de adaptação regulatória e controle de qualidade definirá os vencedores nos próximos anos.
GABA lidera os ingredientes mais populares
Assim como nos anos anteriores, o GABA (ácido gama-aminobutírico) manteve a liderança entre os ingredientes de formulação única nos FFCs. A substância possui autorização para alegações como redução de fadiga, auxílio no sono, alívio do estresse e controle da pressão arterial.
Contudo, a participação de mercado dos produtos baseados em GABA vem encolhendo: após sustentar mais de 14% do mercado durante quatro anos e atingir 18% no ano fiscal de 2024, sua fatia recuou para 10% no ano fiscal de 2025.
O ácido 3-(4-hidroxi-3-metoxifenil)propiônico, conhecido como HMPA, ocupou o segundo lugar entre os ingredientes individuais mais notificados, seguido pela coenzima Q10 reduzida, ácido elágico e dextrina indigestível.
O HMPA ingressou no mercado japonês no ano fiscal de 2022 e já conta com aprovação para cinco alegações de saúde distintas, incluindo a redução da gordura abdominal (visceral e total) em indivíduos com elevado índice de massa corporal (IMC). O bom desempenho do ativo deriva de sua estrutura polifenólica e de sua excelente estabilidade de processamento na indústria alimentícia.
Entre as alegações de saúde mais frequentes nas notificações do setor, destacam-se a redução de gordura corpórea, o alívio do cansaço e a regulação da flora intestinal.
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