Com reestruturação e foco operacional, Shiseido recupera rentabilidade no primeiro semestre
O Grupo Shiseido registrou salto de 211% no lucro líquido no primeiro semestre de 2026, impulsionado por cortes de custos e recuperação nas Américas.
O Grupo Shiseido deu passos consistentes em sua recuperação operacional. Em relatório financeiro divulgado para o primeiro semestre de 2026, o grupo japonês de cosméticos informou que, embora as vendas líquidas tenham crescido apenas 6,2% em comparação anual — permanecendo praticamente estáveis quando desconsiderados os efeitos cambiais —, o lucro líquido atribuível aos acionistas da controladora disparou 211%, atingindo 29,7 bilhões de ienes. O lucro operacional core também apresentou forte avanço de 90,1%, somando 44,4 bilhões de ienes.
O avanço expressivo da rentabilidade indica que a recuperação dos resultados não decorreu de uma expansão nas vendas, mas sim das reformas estruturais implementadas nos últimos anos.
Destaca-se o fato de que os mercados das Américas e da Ásia-Pacífico, que anteriormente pressionavam os balanços da empresa, voltaram a registrar lucro. Ao mesmo tempo, o segmento de China e Travel Retail manteve sua posição central, respondendo por 38,4% do faturamento total do grupo e gerando 47,6 bilhões de ienes em lucro operacional core — o equivalente a 107% do resultado operacional consolidado do grupo.
Com rigoroso controle de despesas, foco nas marcas de maior desempenho e ajustes nas estratégias regionais, a Shiseido começa a superar o período de estagnação que enfrentou nos últimos anos.
Recuperação do lucro ancorada em reformas estruturais
A melhoria na rentabilidade da Shiseido no primeiro semestre de 2026 foi impulsionada sobretudo por iniciativas de redução de custos e ganho de eficiência.
Por um lado, a multinacional deu continuidade à sua reestruturação global, reduzindo as despesas associadas de 4,8 bilhões de ienes no primeiro semestre do ano anterior para menos de 2 bilhões de ienes no período atual. Por outro, medidas operacionais drásticas, como o encerramento das atividades da fábrica de Hsinchu, em Taiwan, a implementação de programas de demissão voluntária e a simplificação da estrutura organizacional, reduziram significativamente os custos fixos e com folha de pagamento.
Essas ações elevaram a margem operacional core do grupo de 5,0% para 8,9%, proporcionando sustentação direta ao resultado financeiro.
Na gestão do portfólio, a Shiseido concentrou recursos em marcas de alta performance, reduzindo gradualmente os aportes em divisões de menor retorno. No primeiro semestre de 2026, as marcas Clé de Peau Beauté (CPB), NARS, ELIXIR e BAUM destacaram-se como os principais motores de expansão.
A ELIXIR liderou o crescimento global com alta de 7%, impulsionada por um avanço superior a 80% no mercado da Ásia-Pacífico. A CPB registrou crescimento de dois dígitos na China e no canal de Travel Retail, enquanto a NARS manteve desempenho positivo na maioria das regiões, beneficiada pelo lançamento de produtos para pele e ações promocionais da linha ORGASM.
Em contrapartida, marcas em reestruturação, como Drunk Elephant e IPSA, continuaram reduzindo sua presença. Embora as vendas da Drunk Elephant tenham caído 12% no semestre, o resultado representa uma melhora em relação à queda de 39% registrada em todo o ano de 2025. No segundo trimestre, a marca sinalizou recuperação ao registrar crescimento de dois dígitos altos na região EMEA (Europa, Oriente Médio e África).
O direcionamento estratégico permitiu à Shiseido concentrar orçamentos de marketing, apoio de distribuição e pesquisa e desenvolvimento nas linhas de maior potencial. A marca principal Shiseido priorizou o sérum ULTIMUNE e a linha anti-idade Vital Perfection, obtendo crescimento de um dígito médio no Japão e de um dígito baixo nas Américas. Já a marca de protetores solares Anessa teve retração de 10% no semestre, mas desacelerou a queda para 6% no segundo trimestre, indicando resultados iniciais no ajuste do ritmo de marketing e na liberação de estoques.
A divisão de fragrâncias cresceu 12% ano a ano no segundo trimestre, com alta superior a 30% na Ásia-Pacífico, puxada pelo bom desempenho dos lançamentos da Narciso Rodriguez e pela expectativa do lançamento global do primeiro perfume da MaxMara.
A recomposição das margens não resultou de picos temporários de vendas de itens isolados, mas da combinação sustentável entre otimização de custos, foco de marca e maior eficiência operacional.
Reequilíbrio da presença regional
Analisando o desempenho geográfico, o mercado da China e Travel Retail permaneceu como a maior fonte de receita e lucro da companhia, registrando vendas líquidas de 191,4 bilhões de ienes e lucro operacional core de 47,6 bilhões de ienes, com margem operacional de 24,6%.
Apesar de uma leve queda comparável de 0,1% no primeiro trimestre devido a reajustes em canais de distribuição, o segundo trimestre apresentou recuperação. O desempenho foi impulsionado pelo grande festival de compras online 618 na China, no qual investimentos focados em CPB e NARS garantiram crescimento de um dígito médio nos canais físicos e estabilização nas vendas digitais. Num cenário em que líderes da beleza chinesa debatem a evolução cultural e a internacionalização do setor, a recuperação do mercado isento de impostos de Hainan e o retorno dos consumidores de alto padrão foram determinantes para o resultado recorde na região.
O CEO da Shiseido China, Toshinobu Umetsu, afirmou que a empresa acelerará a expansão da NARS, da CPB e dos serviços de estética de luxo em institutos de beleza. A empresa também prevê a introdução da marca de nicho Serge Lutens e o desenvolvimento da linha de cuidados com a pele de base tecnológica Luyao, buscando alinhar-se à sofisticação da demanda do consumidor chinês.
Paralelamente, a rentabilização das operações nas Américas e na Ásia-Pacífico sinaliza o fortalecimento do mecanismo de mitigação de riscos globais do grupo.
Nas Américas, o lucro operacional core passou de um prejuízo de 5,8 bilhões de ienes no primeiro semestre do ano anterior para um resultado positivo de 2 bilhões de ienes, impulsionado pelo comércio eletrônico. Na Ásia-Pacífico, a operação reverteu um prejuízo de 130 milhões de ienes para um lucro de 2,2 bilhões de ienes, beneficiada pela melhoria nas margens brutas em mercados como Coreia do Sul e Vietnã, além de um crescimento próximo a 20% no e-commerce durante o segundo trimestre.
A virada financeira nesses dois mercados reduziu a dependência da Shiseido em relação a uma única região.
No Japão, segundo maior mercado do grupo, o desempenho seguiu moderado. A redução do turismo chinês provocou queda de dois dígitos médios nos gastos de visitantes estrangeiros, fazendo com que o mercado interno dependesse predominantemente dos consumidores locais e resultando em leve retração de 0,4% nas vendas totais. Ainda assim, a margem operacional core no país subiu para 14,4%, refletindo ganhos de eficiência interna.
A região EMEA permaneceu como o único território em deficit, acumulando prejuízo operacional core de 3,4 bilhões de ienes no semestre devido a investimentos antecipados em marketing e à intensa concorrência no segmento de cuidados com a pele. Contudo, as vendas na região subiram 9% no segundo trimestre, impulsionadas pelo segmento de fragrâncias, com previsão de alívio na pressão sobre os lucros no segundo semestre.
A mudança de foco estratégico da Shiseido — priorizando a qualidade do resultado em detrimento da busca isolada por volume — deu seus primeiros sinais concretos no primeiro semestre de 2026. Embora a depreciação do iene tenha gerado impacto cambial favorável, a recuperação apoia-se principalmente no ganho de resiliência interna obtido com as reformas.
Para o segundo semestre, o lançamento global da linha de perfumes da MaxMara, a estreia oficial da Serge Lutens na China e a expansão da marca Luyao no canal de estética médica diversificarão ainda mais os vetores de crescimento da multinacional centenária do setor de cosméticos.
Conversa
0 comentário