9 de agosto de 2026
Mercados e tendências

Líderes da beleza chinesa debatem evolução cultural e internacionalização da C-Beauty

No 19º Congresso de Cosméticos da China, executivos e especialistas debateram a transição da C-Beauty da disputa de preços para o valor cultural e global.

China Cosmetics
Por China Cosmetics
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Líderes da beleza chinesa debatem evolução cultural e internacionalização da C-Beauty

O setor de cosméticos da China vive um momento de inflexão histórica. À medida que o conceito de "C-Beauty" ganha projeção internacional, executivos e formuladores de políticas da indústria de beleza do país discutem como migrar do reconhecimento superficial de volumes e preços para a consolidação de marcas orientadas por identidade cultural, tecnologia própria e valor percebido.

No Museu de Arte Powerlong, em Xangai, o 19º Congresso de Cosméticos da China abriu seus trabalhos com o fórum principal "Presence" (Presença). O evento reuniu lideranças de grandes grupos cosméticos locais — como Freda Biological Products, Shanghai Jahwa, Chicmax, CHANDO Group e Lin Qingxuan —, além de especialistas em sociologia do consumo, artistas e grandes fabricantes de equipamentos originais (OEM) e projetos originais (ODM), incluindo Behao Group e Wuxi Kolmar. O encontro propôs uma reflexão profunda sobre os rumos estratégicos e culturais da beleza chinesa.

Sediado em um espaço de arte, o congresso sinalizou uma mudança estrutural do setor: a transição das métricas estritamente funcionais e comerciais para a construção de narrativa e repertório cultural. O debate abordou a jornada de maturação da C-Beauty, da busca por validação externa à afirmação de padrões autônomos de formulação e marca.

Deng Min: A beleza chinesa entra na "era dos dividendos culturais"

"A C-Beauty inaugurou a era dos dividendos culturais", declarou Deng Min, presidente da organizadora Pinguan e curadora da feira de inovação em beleza CiE. Segundo a executiva, a essência do dividendo de mercado reside no alinhamento preciso entre oferta e demanda em determinado momento histórico, e a longevidade das empresas depende de antecipar a próxima grande virada do consumo.

Na evolução recente da indústria chinesa, a fase dos dividendos de tráfego digital impulsionou marcas nativas em plataformas sociais por meio do comércio ao vivo (live commerce). Em seguida, a era dos dividendos de eficácia estimulou o desenvolvimento da cadeia de suprimentos voltada a ingredientes ativos e testes clínicos. Atualmente, o consumidor busca significado e bem-estar emocional em resposta ao desgaste gerado pelo excesso de competição comercial.

Para Deng, as diretrizes nacionais de inovação científica e resgate cultural abrem espaço para oportunidades inéditas. Enquanto os avanços em inteligência artificial e ciências da vida renovam a formulação de produtos, a cultura fornece a identidade necessária para que as marcas estabeleçam conexões duradouras com seu público.

Atsushi Miura: Na quinta era do consumo, a beleza caminha para a saúde, natureza e resiliência

O sociólogo e pesquisador japonês Atsushi Miura analisou as transformações das fases de consumo a partir do histórico de um século do mercado japonês, traçando paralelos para o futuro da estética global.

Miura destacou que as eras do consumo não se anulam, mas coexistem em camadas sobrepostas. A fragmentação das demandas enfraquece o modelo de produtos de massa únicos, abrindo espaço permanente para marcas independentes e de nicho. Ele resumiu os pilares da emergente "Quinta Era do Consumo" em sete conceitos: desaceleração (slow), sensorialidade (sensuous), sociabilidade (sociable), suavidade (soft), narrativa (story), sustentabilidade (sustainable) e solução de problemas sociais (solution of social problems).

Segundo o especialista, a consolidação de imagens femininas fortes e autênticas influenciará decisivamente os cosméticos. A conscientização sobre saúde, o engajamento social e referências da cultura pop e animação formarão a base da estética internacional dos próximos anos.

Gao Chunming (Freda): A ressonância emocional é a verdadeira fonte de ágio

Gao Chunming, presidente e diretor-geral da Freda Biological Products, abordou os desafios da concorrência ostensiva de preços e do saturation do tráfego digital no mercado interno. Em sua palestra sobre a marca Yiparhan, o executivo ponderou que a eficácia funcional se tornou apenas o requisito básico de entrada na categoria, enquanto a capacidade de gerar conexão emocional define a precificação premium.

Gao apontou que o nível fabril e de pesquisa e desenvolvimento (P&D) das empresas chinesas iguala-se ao de concorrentes internacionais, mas muitas marcas locais focaram excessivamente na especificação técnica de ingredientes em detrimento do posicionamento afetivo. Na visão do executivo, o mercado transita da era da eficácia pura para a "economia do bem-estar emocional", exigindo narrativas ancoradas na origem geográfica, valores diferenciados e rotinas de cuidados voltadas ao equilíbrio pessoal.

Sun Laichun (Lin Qingxuan): Os óleos faciais concentram o novo vigor da C-Beauty

Sun Laichun, fundador da marca de cuidados com a pele Lin Qingxuan, detalhou a trajetória de aposta nos óleos faciais botânicos nativos da China. Em 2012, após estudar tradições rurais do uso do óleo de semente de Camellia oleifera, o executivo direcionou a empresa para essa categoria, mantendo a liderança do segmento no país nos últimos 12 anos.

Sun enfatizou o avanço tecnológico na manipulação de ativos botânicos e destacou que, das dez principais marcas de óleos faciais no mercado chinês, oito são nacionais. Ele apontou que a formulação de produtos de cuidados com a pele no país vive um ritmo de inovação acelerado, comparável à transição da indústria automotiva para veículos elétricos, com forte presença de fornecedores chineses de matérias-primas em feiras internacionais da Europa.

Zhang Haifeng: Da "era do utilitarismo" para a "era do pertencimento"

Zhang Haifeng, fundador do veículo de mídia cultural "Who is Most China", defendeu que o ecossistema empresarial chinês encerrou um ciclo de quatro décadas pautado pelo pragmatismo funcional e entra em uma fase em que marcas exigem cosmovisão e subjetividade próprias.

Para Zhang, a evolução da autoconfiança cultural precisa se converter em repertório de gosto individual. As marcas do futuro deverão articular conhecimento técnico com sensibilidade estética refinada, encontrando nichos de mercado onde as necessidades emocionais dos consumidores ainda não foram atendidas.

Painel C-Beauty: Da estética dos símbolos ao estilo de vida e ciência tangível

Em mesa-redonda mediada por Joan, líder do Joan's Living Room, participaram Chen Min (diretor da divisão de beleza da Shanghai Jahwa), Liu Ming (vice-presidente da Chicmax e cofundadora da newpage), Chen Juanling (diretora de assuntos públicos do CHANDO Group) e Zhang Yaodong (sócio-fundador da Baoding Venture Capital).

Os debatedores ressaltaram que superar a percepção de marca genérica exige estabelecer padrões próprios. Chen Min destacou a escala da cadeia de suprimentos integrada na China e a busca por produtos focados em saúde e reparação. Liu Ming defendeu que a velocidade do ecossistema local permite responder antes a novas demandas. Chen Juanling compartilhou pesquisas do CHANDO Group com bases de dados fisiológicos da pele de consumidores locais, enquanto Zhang Yaodong observou que a internacionalização exige equilibrar familiaridade com inovação para os consumidores globais.

Em um cenário de forte concorrência, o setor também enfrenta reestruturações financeiras e operacionais severas, como demonstram episódios recentes em que ocorrem leilões por desafios de endividamento e reestruturação do setor, reforçando a necessidade de consistência estratégica.

Liang Hongli (Behao): A evolução do mercado de máscaras faciais exige tecnologia e cultura

Liang Hongli, CEO do Behao Group, afirmou que as máscaras faciais em tecido representam uma das categorias onde a indústria chinesa está mais próxima da liderança global. Contudo, os segmentos de preço mais elevados no mercado doméstico ainda são dominados por conglomerados ocidentais.

Liang argumentou que a sofisticação das máscaras faciais depende da união entre rigor científico na engenharia de tecidos/ativos e valor cultural agregado. A fabricante publicou um livro branco direcionado à padronização do segmento premium, visando consolidar parâmetros de qualidade e fabricação responsável no setor.

Li Dongtian: Aprendemos com o mundo enquanto reafirmamos nossa própria identidade

O maquiador e artista estético Li Dongtian, fundador da Dongtian Styling, revisitou a evolução das técnicas de maquiagem na China. Ele criticou a reprodução acrítica de padrões ocidentais ocorrida nos anos 1990 e defendeu a valorização das estruturas faciais orientais.

Li ressaltou que a maquiagem deixou de ser mera camuflagem para se tornar um elemento de expressão e identidade cultural. O diferencial competitivo das marcas locais reside em integrar elementos estéticos autóctones ao desenvolvimento de produtos em vez de mimetizar tendências estrangeiras.

Huang Weijie: A beleza precisa da arte para criar conexões emocionais profundas

Huang Weijie, fundador do ARTOX GROUP, explicou como a integração entre arte e varejo transforma pontos de venda em espaços de experiência imersiva. Ele indicou que o conceito de varejo de experiência amplia o tempo de permanência do cliente e impulsiona a conversão comercial.

A utilização deliberada de instalações e linguagem artística transmite o posicionamento de marca de forma direta, estabelecendo a sensação de valor que justifica patamares superiores de preço.

Jiang Guozheng (Nianxiang): Marcas autênticas constroem propósitos sem tentar agradar a todos

Jiang Guozheng, fundador da consultoria de marcas Nianxiang, abordou o conceito de crença de marca (Brand Belief). Na visão de Jiang, a identidade de uma marca consolida-se por meio de decisões estratégicas de longo prazo, assumindo custos e renúncias em favor de princípios claros.

Ao mencionar cases de marcas de estilo de vida e perfumaria, Jiang pontuou que o posicionamento chinês não reside na aplicação superficial de iconografia tradicional, mas em uma forma estrutural e autêntica de resolver necessidades contemporâneas.

Lan Vu: O momento ideal para projetar a C-Beauty no cenário global

Lan Vu, fundadora da agência global de inteligência de tendências BEAUTYSTREAMS, apontou que a conjuntura atual favorece a expansão internacional das marcas chinesas.

Em sua análise, enquanto a J-Beauty consolidou a reputação de precisão técnica e a K-Beauty dinamizou formatos e tendências de maquiagem, a C-Beauty tem capacidade para liderar a próxima fase do setor por meio da personalização em escala. Essa dinâmica está alinhada ao avanço da inteligência preditiva e da personalização guiada por inteligência artificial na formulação de cosméticos, combinada a biotecnologia avançada, filosofia de bem-estar holístico e agilidade fabril.

Zhu Hong (Cenkon): A expansão internacional da C-Beauty não é uma guerra para vencer o mundo

Zhu Hong, diretor-geral da Cenkon (Zhongtong Biotech), fez alertas sobre as armadilhas da internacionalização baseada apenas em guerras de preços no exterior, o que mina a reputação das marcas locais e desgasta a conformidade regulatória.

Zhu ressaltou que a presença global bem-sucedida exige integração com ecossistemas locais, rigor regulatório, responsabilidade e respeito aos mercados de destino, priorizando a rentabilidade e a diferenciação de produto em vez da disputa por volumes marginais.

Kim Jin-ho (Kolmar Korea): As três vantagens competitivas centrais da C-Beauty

Kim Jin-ho, diretor-executivo do Centro de Criação de Marketing da Kolmar Korea, analisou os fatores do ecossistema coreano de beleza e sua aplicação ao mercado chinês.

Kim sintetizou as forças da C-Beauty em três frentes: velocidade de inovação guiada por dados das redes sociais e plataformas digitais como Xiaohongshu (plataforma de estilo de vida e e-commerce) e Douyin (versão chinesa do TikTok); storytelling autoral ancorado em conceitos culturais; e a densidade industrial dos polos produtivos de Xangai e Guangdong, apoiados por parceiros ODM experientes em regulamentação global.

Mesa-redonda de fundadores: Estratégias e adaptação para o mercado internacional

No encerramento do fórum principal, Han Xiao (editor-chefe do Beauty Insiders) mediou conversa com Ju Da (fundadora da Daisy's Sky), Fang Xing (fundador da Focallure), Wu Yifan (diretora-geral de cosméticos da Yangshengtang) e Zhu Zhiguo (fundador da Skinsha).

Fang Xing, cuja marca de maquiagem está presente em mais de 50 países, ressaltou que a percepção externa sobre as marcas chinesas evoluiu graças à melhoria consistente de qualidade. Wu Yifan ressaltou que a inovação em formulação — como sistemas sem adição de água — gera credibilidade científica. Zhu Zhiguo, atuante no Sudeste Asiático, reforçou que a chave do sucesso no exterior reside na tropicalização e localização profunda de rotulagem, comunicação e distribuição.

Paralelamente ao congresso, a feira temática exibiu mais de 100 fornecedores de ingredientes, embalagens, formulação e marcas estabelecidas, incluindo Proya, Kans, CHANDO, Winona, Comfy, Grain Rain, HBN, Florasis e Flower Knows, além de fabricantes como Behao, Wuxi Kolmar, Cosmax, Nox Bellcow e Cenkon.

A programação encerrou-se com a entrega do prêmio C-Beauty Awards 2026 e painéis técnicos dedicados ao desenvolvimento de novos ingredientes, ciência de formulação e estratégias de diferenciação de marca.

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