21 de agosto de 2026

Transação de 1,7 bilhão de yuans sela venda da fabricante Jiaheng Jiahua

A venda da fabricante de cosméticos Jiaheng Jiahua por até 1,7 bilhão de yuans marca a primeira saída total de uma família fundadora no setor de OEM/ODM na China, revelando os desafios do modelo tradicional de produção.

Chen Jinyan
Por Chen Jinyan
8 min de leitura
Transação de 1,7 bilhão de yuans sela venda da fabricante Jiaheng Jiahua

A saída total da família Zeng do controle da Jiaheng Home & Beauty (Jiaheng Jiahua) expõe as profundas dificuldades enfrentadas pelas empresas tradicionais de fabricação terceirizada na indústria cosmética na China.

No dia 27 de maio, a Jiaheng Jiahua anunciou que seu acionista controlador e fundador, Zeng Bensheng, concluiu a transferência de 29,70% das ações da empresa para a Hangzhou Pinbianyi e seus parceiros de investimento (Wenzhou Cangxiao e Hangzhou Runyi). Além disso, Zeng abriu mão dos direitos de voto das suas ações restantes (25,79%), mantendo apenas direitos econômicos, como o recebimento de dividendos. Com isso, a família Zeng se retira totalmente da gestão, consolidando a mudança de controle da companhia de capital aberto.

Essa transação encerra um processo iniciado em 24 de dezembro de 2025. A Hangzhou Pinbianyi passa a ser a nova controladora, e seu fundador, Xu Yi, assume o comando estratégico. A Pinbianyi planeja lançar uma oferta pública de aquisição para comprar mais 21,10% das ações. Se concretizada, a fatia da empresa e de seus parceiros chegará a 50,80%, garantindo o controle absoluto. Avaliada em 33,21 yuans por ação, a transação total pode alcançar 1,7 bilhão de yuans (cerca de US$ 234 milhões).

Embora o valor não seja atípico para o mercado de fusões e aquisições na China, este é o maior movimento no setor de terceirização de cosméticos desde o início de 2026. Trata-se do primeiro caso emblemático no país em que os fundadores de uma grande fabricante de cosméticos decidem vender o controle e se retirar completamente da operação. Em casos anteriores, como a aquisição de 90% da Nox Bellcow pela Qingsong por 2,4 bilhões de yuans, os fundadores originais mantiveram participação e continuaram na gestão.

A mudança de controle da Jiaheng Jiahua revela o desgaste das indústrias tradicionais de fabricação por contrato e coloca sob os holofotes essa união incomum entre uma plataforma digital de cadeia de suprimentos e uma manufatura tradicional.

A armadilha do faturamento em alta e lucro em queda

Fundada em 2005 por Zeng Bensheng em Quanzhou, na província de Fujian, a Jiaheng Jiahua começou como fabricante de embalagens plásticas. Com o tempo, expandiu para a fabricação de cosméticos sob os modelos OEM/ODM (fabricação de equipamento original e de projeto original), consolidando um modelo de negócios duplo.

Seus clientes incluem gigantes globais e locais como P&G, Kenvue, Shanghai Jahwa, Yumeijing e a Betanye (que recentemente reestruturou suas operações após metas de lucro não cumpridas). O portfólio da Jiaheng abrange cuidados com a pele, cuidados com os cabelos, produtos para bebês e itens de limpeza doméstica.

Em 2021, a empresa abriu capital na ChiNext, a bolsa de startups de Shenzhen, destacando-se como uma das poucas com cadeia completa de cosméticos e embalagens. No entanto, o IPO marcou o início de uma fase difícil de crescimento de receita sem rentabilidade.

Após atingir o pico em 2021, com receita de 1,16 bilhão de yuans e lucro líquido de 97 milhões de yuans, os resultados despencaram. Em 2024, a empresa registrou seu primeiro prejuízo anual, de 24 milhões de yuans. Em 2025, embora a receita tenha se recuperado para 1,13 bilhão de yuans, o prejuízo aumentou para 37 milhões de yuans. No primeiro trimestre de 2026, mesmo com alta de 37,93% no faturamento, o saldo continuou negativo em 4,18 milhões de yuans.

No segmento de cosméticos, o faturamento saltou de 371 milhões para 630 milhões de yuans entre 2020 e 2021, mas caiu nos três anos seguintes. Em 2025, recuperou-se para 612 milhões de yuans. Já a divisão de embalagens plásticas permaneceu estagnada, oscilando em torno de 380 milhões de yuans.

A Jiaheng Jiahua justificou os prejuízos recentes apontando a baixa utilização da capacidade de sua nova fábrica em Huzhou, o aumento da depreciação de ativos, mudanças no mix de produtos dos clientes (que reduziram as margens de lucro) e a alta nas despesas administrativas e financeiras.

Contudo, analistas apontam problemas estruturais mais profundos:

  1. Dependência extrema: A empresa opera em um modelo de terceirização altamente dependente de poucos grandes clientes, sem marcas próprias ou tecnologias proprietárias fortes, o que limita seu poder de barganha. Quando as marcas cortam pedidos ou pressionam por preços menores, as margens da fábrica são esmagadas.
  2. Sucessão familiar: Em novembro de 2024, Zeng Bensheng, então com 79 anos, passou o comando para seu filho, Zeng Huanbin, com a filha, Zeng Yaping, na vice-presidência. Embora a nova geração tenha recuperado o faturamento atraindo novos clientes, não conseguiu controlar os custos operacionais, recorrendo a descontos agressivos que ampliaram os prejuízos.

Diante da incapacidade da segunda geração de reverter o cenário, a venda do controle mantendo apenas os dividendos tornou-se a decisão mais racional para preservar o patrimônio familiar.

A ambição digital da Pinbianyi e o fantasma da listagem reversa

Diferente da Jiaheng Jiahua, com seus 21 anos de história industrial, a compradora Hangzhou Pinbianyi é uma empresa de tecnologia fundada há apenas oito anos. Criada em 2017 pelo jovem empreendedor Xu Yi, a startup foca nas dores de abastecimento de milhões de pequenas lojas de conveniência independentes na China, utilizando inteligência artificial e análise de dados para compras coletivas inteligentes.

A Pinbianyi opera em um modelo de ativos leves (asset-light), conectando varejistas a fornecedores e otimizando a logística sem carregar estoque próprio. A plataforma atende mais de 600 mil lojas de conveniência, 4 mil distribuidores e conta com 50 mil motoristas parceiros. Em 2024, registrou lucro líquido de 236 milhões de yuans. A compra da Jiaheng Jiahua é seu maior investimento até o momento e marca sua estreia na manufatura.

Em tese, há sinergia entre as duas empresas: a Pinbianyi oferece canais de distribuição robustos para os produtos fabricados pela Jiaheng, ajudando a ocupar a capacidade ociosa da fábrica de Huzhou. Por outro lado, a infraestrutura industrial da Jiaheng pode dar suporte para a Pinbianyi lançar suas próprias marcas privadas.

No entanto, o mercado vê a transação com ceticismo. O primeiro desafio é o choque cultural entre a agilidade do setor de tecnologia e a gestão rigorosa exigida na manufatura industrial. Além disso, os altos custos de depreciação da fábrica de Huzhou não serão resolvidos rapidamente. No acordo de aquisição, a família Zeng garantiu que a Jiaheng Jiahua dará lucro líquido positivo entre 2026 e 2028, dando à Pinbianyi um prazo de três anos para provar sua capacidade de gestão.

Outro ponto de desconfiança é se a Pinbianyi estaria usando a Jiaheng Jiahua para realizar uma listagem reversa (backdoor listing), obtendo acesso rápido à bolsa de valores em um momento de regras mais rígidas para IPOs na China. A Pinbianyi nega essa intenção, reforçando que o foco é puramente a integração de canais e a eficiência industrial.

Consolidação acelera no setor de terceirização de cosméticos

A venda da Jiaheng Jiahua não é um caso isolado, mas parte de uma onda de consolidação na cadeia de suprimentos de beleza. Em março de 2025, a alemã Henkel adquiriu a fabricante chinesa de cosméticos Suzhou Boke. Em fevereiro de 2026, a gigante coreana Cosmax comprou 51% da italiana Keminova para estabelecer sua primeira base de produção na Europa.

Esses movimentos mostram que, em um período de forte ajuste de mercado, empresas com capital e canais consolidados estão avançando sobre a manufatura para criar barreiras competitivas. Com o fim do crescimento fácil baseado apenas em volume e o movimento de grandes marcas construindo suas próprias fábricas, o espaço para terceirizadoras tradicionais está encolhendo drasticamente.

O caso da Jiaheng Jiahua serve de alerta para o setor de beleza global: o modelo tradicional de fabricação por contrato puramente focado em volume perdeu força. Para sobreviver à nova fase do mercado, as fabricantes precisam migrar para modelos focados em inovação tecnológica, formulações exclusivas e parcerias estratégicas de distribuição.

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