Como a inteligência artificial acelera a inovação na indústria de beleza chinesa
Marcas chinesas de cosméticos usam inteligência artificial para encurtar o desenvolvimento de produtos e competir com gigantes globais em inovação científica.
Pouco antes do Dia dos Solteiros (o maior festival de compras da China) no final do ano passado, a empresa de beleza Yatsen Holding Ltd lançou um novo sérum contendo PDRN, um dos ingredientes regenerativos mais cobiçados do skincare atual.
O que os consumidores não viram foi a velocidade recorde com que o produto chegou às prateleiras. A Yatsen utilizou inteligência artificial (IA) para reduzir um ciclo de desenvolvimento que normalmente leva mais de dois anos para apenas seis meses, ajudando os pesquisadores a reduzir uma lista de mais de 50 ingredientes candidatos para apenas três em uma única semana.
A IA está remodelando rapidamente a indústria da beleza na China ao encurtar cada etapa do desenvolvimento de produtos. Marcas locais usam a tecnologia para analisar milhões de publicações em redes sociais em busca de tendências emergentes, descobrir novos ingredientes cosméticos em parceria com startups de biotecnologia e lançar produtos no mercado em questão de meses, em vez de anos.
Com a desaceleração do crescimento no segundo maior mercado de beleza do mundo, as marcas nacionais recorrem à IA para fechar a lacuna de inovação em relação aos concorrentes globais. As empresas locais representam 57% das vendas de cosméticos na China, segundo a Associação Chinesa de Indústrias de Fragrâncias, Sabores e Cosméticos, mas ainda ficam atrás das marcas estrangeiras no segmento premium.
“As marcas ocidentais atualmente aplicam maior capacidade computacional de IA para descoberta e validação”, afirma Adam Knight, cofundador da YASO, plataforma que auxilia marcas de beleza ocidentais a entrar no mercado chinês. “Já as marcas chinesas trazem muito mais velocidade do laboratório para a prateleira.”
O ecossistema de consumo altamente digitalizado da China acelera essa transformação. Transmissões ao vivo (live commerce), plataformas de e-commerce e redes sociais geram um fluxo constante de dados de consumo, permitindo que as marcas identifiquem demandas emergentes e apliquem esses insights no desenvolvimento de produtos. Um dos exemplos mais proeminentes é a marca de maquiagem Florasis, que usa IA para analisar interações de clientes e avaliações online após cada transmissão ao vivo para refinar suas estratégias de marketing e desenvolvimento de produtos.
A corrida pela inovação ocorre em um momento de perda de fôlego no mercado de beleza chinês. Após anos de rápida expansão impulsionada por descontos e compras online, as marcas locais enfrentam pressões para se diferenciar. A maior empresa de beleza do país, a Proya Cosmetics Co, registrou no ano passado sua primeira queda de receita anual desde 2016, enquanto a Yatsen continuou operando no prejuízo, apesar de ter reduzido suas perdas. O valor das transações de cosméticos na China cresceu apenas 2,8% em 2025, de acordo com a associação do setor.
Marcas estrangeiras também começaram a recuperar participação no mercado premium em plataformas como o Tmall e o Taobao, do Grupo Alibaba, enquanto as marcas chinesas voltadas ao mercado de massa continuam perdendo espaço, segundo a empresa de dados Hangzhou Zhiyi Tech.
Os consumidores chineses buscam cada vez mais fórmulas com respaldo científico e ingredientes inovadores que prometem pele mais iluminada, redução de rugas e outros resultados mensuráveis. Os ingredientes tornaram-se um dos principais fatores de decisão de compra: cerca de 35% dos consumidores chineses pesquisam os componentes antes de comprar produtos de beleza e cuidados pessoais, segundo a empresa de pesquisa de mercado Mintel Group Ltd — uma proporção maior do que nos EUA ou no Reino Unido.
“Os consumidores chineses agora comparam cosméticos com procedimentos como Botox, medicamentos injetáveis para perda de peso (GLP-1) e cirurgias plásticas, exigindo comprovação clínica de resultados”, afirma Cheng Jing, diretor científico da Yatsen. Essa mudança de comportamento reflete uma tendência mais ampla no país, onde a pesquisa clínica define a nova era de inovação no skincare chinês, forçando as marcas a buscarem validação científica rigorosa para sustentar suas alegações de eficácia.
Na Proya, a triagem molecular baseada em IA identificou dezenas de candidatos promissores a ingredientes para prevenção da queda de cabelo para testes laboratoriais, reduzindo o processo de seleção a apenas um centésimo do tempo exigido pelos métodos convencionais.
A empresa sediada em Hangzhou utiliza cada vez mais a IA para descobrir e selecionar novos ingredientes ativos, e planeja introduzir peptídeos identificados por IA em sua principal linha de skincare. A tecnologia ajuda a otimizar as formulações ao prever como os ingredientes interagem antes mesmo de os produtos entrarem no laboratório, explica Sun Peiwen, diretor de P&D e inovação.
Parcerias com biotecnologia
Muitas empresas de beleza estão percebendo que não conseguem desenvolver essas capacidades de IA sozinhas. Em vez disso, buscam parcerias com startups chinesas de biotecnologia que combinam a tecnologia com biologia sintética para descobrir e fabricar ingredientes cosméticos de forma mais rápida — e barata.
A Veminsyn, empresa de Pequim que conta com o apoio da L'Oréal, utiliza IA para identificar ingredientes promissores, prever seu desempenho e otimizá-los antes do início dos testes de laboratório.
No passado, “era necessário triar um milhão de candidatos para encontrar um único ingrediente”, diz o cofundador e cientista-chefe Ray Chen. “O tempo e o custo tornavam isso inviável.”
A empresa afirma fornecer ingredientes para mais de 350 marcas de beleza nacionais e internacionais, incluindo Proya e L'Oréal. Usando IA, a Veminsyn reduziu mais de um milhão de fragmentos de colágeno a sete candidatos promissores em cerca de dois meses, antes de comercializar três ingredientes que hoje estão entre os seus mais vendidos, segundo Chen.
A Bota Biosciences, sediada em Hangzhou, adota um processo semelhante: inicia os projetos consultando uma plataforma interna de IA que analisa sequências de DNA, prevê propriedades de ingredientes, classifica candidatos e propõe experimentos, que são validados em laboratórios automatizados usando protocolos gerados por IA. Suas instalações realizam até 1,5 milhão de experimentos com cepas por ano, e os dados são reinseridos nos modelos de IA para novos aprimoramentos.
A diretora executiva Cheryl Cui estima que a IA pode reduzir o custo de desenvolvimento de um novo ingrediente cosmético de dezenas de milhões de dólares para apenas alguns milhões. Relatórios científicos que antes levavam semanas para serem elaborados agora podem ser gerados em minutos.
“A China tem uma grande vantagem na eficiência de custos para geração de dados”, afirma Cui.
Como exemplo, uma elastina humana cultivada em laboratório para dar firmeza à pele levou cerca de um ano para ir do planejamento à produção, em comparação com os três a cinco anos exigidos pelos métodos convencionais. Essa elastina agora é utilizada em um sérum da Proya, e a Bota trabalha com a marca no desenvolvimento de novos ingredientes e na coleta de dados para futuros produtos.
O ritmo acelerado de inovação também foi impulsionado por mudanças regulatórias. A China reformulou seu sistema de aprovação de ingredientes cosméticos em 2021, substituindo análises que levavam anos por um processo de registro simplificado que leva dias. Desde então, cerca de 500 novos ingredientes cosméticos foram registrados no país, com as empresas nacionais liderando a maioria dos registros, segundo dados da consultoria regulatória CIRS Group. Em comparação, apenas 14 ingredientes foram aprovados entre 2004 e 2021.
Ainda assim, resta saber se os ingredientes gerados por IA na China conseguirão criar marcas de sucesso global. Até o momento, as marcas chinesas não criaram ingredientes ou tendências de beleza virais no cenário internacional que se comparem à popularidade alcançada pelos cosméticos do Japão e da Coreia do Sul além da Ásia.
Os concorrentes globais de cosméticos também estão intensificando seus investimentos em IA, apoiados por décadas de dados acumulados. A L'Oréal fez uma parceria com a IBM para desenvolver um modelo de IA voltado a formulações cosméticas e com a Nvidia Corp para simular o desempenho de ingredientes. A Estée Lauder Cos uniu-se à Microsoft Corp para pesquisas de marketing e previsão de tendências, enquanto a Unilever plc lançou produtos de cuidados com a pele e cabelos assistidos por IA sob marcas como Pond's e Dove.
“O mercado não está mais crescendo como antes”, afirma Knight, da YASO. “Portanto, o crescimento agora vem da conquista de participação de mercado em um cenário intensamente competitivo, e a velocidade impulsionada pela IA é o caminho para vencer essa disputa.”

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