O colapso do mito de tráfego da Banmu Huatian rumo ao IPO
A marca chinesa de cuidados corporais Banmu Huatian enfrenta entraves regulatórios em seu IPO, revelando os limites do crescimento baseado apenas em tráfego.
Uma marca chinesa de cuidados corporais que fatura quase 2 bilhões de yuans anuais viu seus planos de abrir capital na Bolsa de Hong Kong serem interrompidos por uma carta de questionamento regulatório. A Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China (CSRC) levantou seis questões críticas sobre a estrutura acionária, captações de recursos de última hora e o escopo de atuação da Banmu Huatian, expondo o dilema comum enfrentado por marcas que dependem excessivamente de tráfego pago ao tentarem acessar o mercado de capitais e destacando a importância da conformidade regulatória.
A ascensão meteórica: surfando em todas as tendências digitais
Fundada em 2010 como uma pequena oficina de processamento de rosas em Pingyin, na província de Shandong, a Banmu Huatian entrou no segmento de cuidados corporais — um nicho quase inexplorado na época na China. Focada em loções corporais e esfoliantes de baixo custo, a marca operou de forma discreta por quase oito anos.
A verdadeira virada de chave ocorreu em 2018, com a explosão dos vídeos curtos. A marca apostou todas as suas fichas em marketing de conteúdo e comércio social. Em 2019, firmou parcerias com cerca de 200 agências de influenciadores (MCNs) e, apenas entre maio e julho daquele ano, promoveu um único esfoliante com mais de 3.500 criadores de conteúdo. O preço extremamente acessível aliado a resenhas realistas atraiu em cheio os consumidores jovens. Em 2019, o Douyin (a versão chinesa do TikTok) gerou sozinho cerca de 1,5 bilhão de yuans em vendas. Em 2024, a receita geral atingiu 1,5 bilhão de yuans, saltando para 1,89 bilhão de yuans nos primeiros três trimestres de 2025. Liderando os rankings online e expandindo para mais de 50 mil pontos de venda físicos, além de contar com o endosso de celebridades como a atriz Dilraba Dilmurat e a mesa-tenista Sun Yingsha, a Banmu Huatian consolidou-se como líder no setor de cuidados corporais.
As rachaduras na base: o crescimento insustentável baseado em tráfego pago
Por trás dos números brilhantes de vendas, os problemas já estavam se acumulando. Entre 2023 e os primeiros três trimestres de 2025, as despesas de vendas e marketing representaram 53,2%, 45,2% e 47,3% da receita, respectivamente — ou seja, quase metade do faturamento foi destinada à compra de tráfego e publicidade. Em contrapartida, os investimentos em pesquisa e desenvolvimento (P&D) despencaram de 2,4% para apenas 1,5% da receita. Sem fórmulas proprietárias ou patentes exclusivas, a maioria de seus produtos de sucesso utiliza formulações genéricas da indústria. Com um preço médio de produto em torno de 21 yuans (cerca de 3 dólares), a marca enfrenta um dilema: aumentar os preços afastaria os consumidores sensíveis ao custo, enquanto mantê-los corrói as margens de lucro devido ao encarecimento constante do tráfego digital.
Em março de 2025, a conta da marca no Xiaohongshu (plataforma chinesa de estilo de vida e compras semelhante ao Instagram) foi banida sob a acusação de publicar avaliações falsas de consumidores. Além disso, a dependência total de fabricantes terceirizados (modelo OEM/ODM) gerou problemas crônicos de controle de qualidade, resultando em reclamações frequentes de alergias, variações entre lotes e divergências de fragrância.
IPO travado: os questionamentos regulatórios que expõem as fragilidades
Após a entrega do prospecto de IPO em janeiro de 2026, o mercado estava otimista com a trajetória dessa "zebra" do setor de beleza. No entanto, cinco meses depois, a carta de questionamento da CSRC expôs todas as suas fraquezas.
As seis principais perguntas da agência reguladora miraram pontos críticos: a empresa é um negócio estritamente familiar, onde o casal de fundadores controla mais de 85% dos direitos de voto; houve duas rodadas de captação de recursos aceleradas pouco antes do pedido de IPO, atraindo instituições como Huatai e GenBridge, e até fundadores de marcas concorrentes, elevando a avaliação da empresa para 4,2 bilhões de yuans em tempo recorde; o registro comercial da empresa incluía atividades bizarras e totalmente alheias ao setor de cosméticos, como a venda de veículos elétricos e operação de postos de recarga; além de dúvidas sobre a conformidade de planos de opções de ações para funcionários, cláusulas especiais de acionistas e limites de investimento estrangeiro. Essa enxurrada de questionamentos expôs a fragilidade estrutural da marca.
O teste da transformação: superando o rótulo de "marca de internet"
O impasse da Banmu Huatian reflete o cenário atual de toda a indústria de beleza na China. Na última década, inúmeras marcas locais cresceram rapidamente ao aproveitar as ondas de novos canais digitais, mas agora enfrentam um gargalo de crescimento à medida que os custos de aquisição de clientes disparam.
Em contrapartida, empresas que conseguiram superar esses ciclos de mercado adotaram estratégias diferentes. A Proya, por exemplo, também dependeu fortemente do boom do e-commerce em seus primeiros anos, mas posteriormente redirecionou seus recursos para P&D e para a criação de produtos heróis (os chamados hero products), elevando seu tíquete médio para a faixa de 300 yuans. Embora ambas as marcas gastem cerca de 50% de suas receitas em marketing, os investimentos da Proya focam na construção de valor de marca a longo prazo, enquanto a Banmu Huatian prioriza a conversão imediata de vendas. Essa diferença se reflete diretamente na rentabilidade: a margem de lucro líquido da Proya ultrapassa 14%, enquanto a da Banmu Huatian é de apenas 7,8%.
Essa necessidade de reestruturação não é exclusiva das marcas mais jovens; gigantes tradicionais como a Shanghai Jahwa também aceleram sua transição para o mercado de beleza premium para garantir relevância e margens saudáveis em um ambiente altamente competitivo.
A Banmu Huatian já está tentando mudar: expandiu sua presença para uma estratégia multicanal e estabeleceu três centros de P&D em Jinan, Guangzhou e Xangai. No entanto, para marcas que buscam abrir capital, o IPO nunca é a linha de chegada, mas sim o ponto de partida para a transformação. A transição de um modelo "orientado por tráfego" para um "orientado por marca" é um caminho muito mais árduo do que simplesmente surfar em uma tendência passageira. Abandonar o rótulo de "marca de internet" e se consolidar como uma empresa nacional com forte capacidade de P&D e valor de marca real é o verdadeiro teste de sobrevivência para a Banmu Huatian e seus pares.
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