23 de agosto de 2026

Bioregen busca IPO na China apesar de prejuízos em sua divisão de skincare

A Bioregen avança rumo ao IPO na Bolsa de Pequim, mas enfrenta o desafio de rentabilizar sua marca de skincare VITREGEN diante dos altos custos de marketing.

Huai Jun
Por Huai Jun
9 min de leitura
Bioregen busca IPO na China apesar de prejuízos em sua divisão de skincare

Dezoito anos se passaram desde a fundação de seu primeiro laboratório até a preparação para a estreia no mercado de capitais.

A Changzhou Bioregen Biomedical Co., Ltd. (doravante denominada "Bioregen") apresentou oficialmente seu pedido de registro para abertura de capital na Bolsa de Valores de Pequim (BSE). A empresa já havia sido aprovada pelo comitê de listagem da instituição no início de 2026.

Fundada como uma fabricante de dispositivos médicos focada em materiais antiadesão pós-operatórios, a Bioregen levou cinco anos para construir um negócio de cuidados com os pele que hoje fatura quase 90 milhões de yuans (cerca de US$ 12,4 milhões). Embora a empresa tenha consolidado com sucesso a fase inicial de validação de mercado, expandir essa operação ainda impõe grandes desafios.

Do centro cirúrgico para a penteadeira: nova divisão fatura quase 90 milhões de yuans

Fundada em 2008, a Bioregen concentra-se na pesquisa, desenvolvimento, fabricação e venda de biomateriais médicos. Seus produtos são amplamente utilizados na regeneração de tecidos pós-cirúrgicos em cavidades uterinas, pélvicas, abdominais e nasais. Até o final de 2025, o portfólio médico da empresa já estava presente em mais de 2.300 hospitais na China, cobrindo cerca de 700 hospitais de nível 3A — a categoria mais alta e prestigiada do sistema de saúde chinês.

Mesmo com uma trajetória sólida no setor farmacêutico e de dispositivos médicos, a empresa decidiu diversificar sua atuação em 2021.

A Bioregen entrou no mercado de cosméticos de alta performance com o lançamento da VITREGEN, uma marca de cuidados com a pele voltada para a reparação de peles sensíveis. O grande diferencial de marketing da marca é a aplicação de "padrões técnicos de dispositivos médicos de Classe III" — a categoria regulatória mais rigorosa da China para produtos de saúde, o que confere forte credibilidade científica ao posicionamento da marca.

O principal produto médico da Bioregen é o gel de hialuronato de sódio reticulado. Como o ácido hialurônico é um dos ativos mais populares na indústria cosmética global, a empresa realizou uma transferência de tecnologia: adaptou o material usado para evitar aderências cirúrgicas em um creme facial para peles sensíveis. Apoiada por sua cadeia de suprimentos médica preexistente, a VITREGEN nasceu com o selo de eficácia clínica.

Em um mercado maduro e dominado por consumidores focados em ativos e ingredientes, esse histórico médico facilitou a conquista da confiança inicial do público.

Dados de plataformas de comércio eletrônico como o Tmall (do grupo Alibaba) e o Douyin (a versão chinesa do TikTok) confirmam essa tração, com múltiplos produtos da VITREGEN superando a marca de dezenas de milhares de unidades vendidas. O prospecto de IPO da Bioregen revela que, entre 2023 e 2025, a receita da divisão de cosméticos saltou de 44,09 milhões de yuans para 89,97 milhões de yuans, elevando sua participação no faturamento total do grupo de 22% para 32%.

A marca tem aparecido com frequência nos rankings de mais vendidos, produtos mais bem avaliados e taxas de recompra nessas plataformas digitais. Para uma marca com apenas cinco anos de mercado, essa presença consistente em múltiplos rankings indica uma aceitação sólida por parte dos consumidores, superando o impacto de picos temporários de vendas.

No entanto, os dados financeiros do prospecto de IPO revela uma realidade paralela.

Embora o faturamento da VITREGEN continue crescendo, a divisão de cuidados com a pele ainda não atingiu o ponto de equilíbrio financeiro. Diante dos lucros líquidos consolidados do grupo — que foram de 50,07 milhões, 52,31 milhões e 76,34 milhões de yuans entre 2023 e 2025 —, a nova operação de cosméticos ainda atua como um dreno nos resultados financeiros gerais.

Boas vendas, mas sem lucro real

Entre 2023 e 2025, a divisão de cosméticos da Bioregen registrou prejuízos líquidos de 9,23 milhões, 12,40 milhões e 1,91 milhão de yuans, respectivamente. O prejuízo acumulado em três anos supera os 23 milhões de yuans (cerca de US$ 3,2 milhões).

Essa falta de rentabilidade decorre de uma diferença fundamental na lógica de negócios de cada setor.

Os dispositivos médicos são voltados para hospitais, dependendo de canais de distribuição especializados, congressos científicos e aprovações regulatórias complexas. Já os cosméticos dependem diretamente do consumidor final, exigindo forte construção de marca e aquisição constante de tráfego digital. No primeiro caso, a decisão de compra cabe ao médico com base em eficácia clínica; no segundo, cabe ao consumidor final com base na experiência de uso e fidelidade à marca. Essa disparidade na estrutura de custos e no ciclo de retorno financeiro não é facilmente superada apenas pela vantagem tecnológica.

O prospecto de IPO aponta que o principal fator para os prejuízos contínuos na divisão de skincare são as despesas de vendas e marketing.

No período de 2023 a 2025, as despesas de vendas da divisão de cosméticos representaram 72,63%, 77,78% e 63,13% de sua receita correspondente — patamares significativamente superiores à média do setor.

A Bioregen justifica que esses números elevados se devem ao estágio inicial da marca, que exigiu investimentos massivos em campanhas de marketing digital para construir reconhecimento de marca a partir de uma base de receita ainda modesta.

Paralelamente, os custos com serviços de promoção online do grupo subiram para 25,78 milhões, 32,04 milhões e 45,85 milhões de yuans no mesmo período, abocanhando 39,27%, 40,54% e 48,85% das despesas de vendas totais da companhia.

Na prática, isso significa que para cada 100 yuans faturados com a venda de cosméticos, cerca de 78 yuans foram reinvestidos em publicidade digital no período de pico. Custos crescentes com tráfego pago, comissões de influenciadores e taxas de plataformas de e-commerce corroeram severamente as margens de lucro da VITREGEN.

Essa forte dependência de tráfego pago reflete um cenário desafiador no mercado chinês, onde o antigo modelo baseado apenas em tráfego barato perdeu força, conforme apontado nos debates sobre a internacionalização do setor durante o iPDF 2026.

Outro ponto de atenção é o contraste entre os gastos de marketing e o investimento em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). No mesmo período, a taxa de investimento em P&D da Bioregen foi de 6,82%, 7,89% e 5,61%, enquanto a média de concorrentes comparáveis no setor supera os 9%.

Para uma empresa que se posiciona no campo da biomedicina e promove um conceito de "skincare de padrão médico", manter investimentos em P&D abaixo da média do mercado pode enfraquecer seu apelo tecnológico no longo prazo. Essa assimetria financeira atraiu o escrutínio dos órgãos reguladores durante o processo de revisão do IPO.

Além disso, a Bioregen adquire sua principal matéria-prima de ácido hialurônico (hialuronato de sódio) da Bloomage Biotechnology. Como a Bloomage também atua no mercado de produtos acabados com marcas próprias como Biohyalux e Quadha, a Bioregen enfrenta uma vulnerabilidade estratégica ao depender diretamente de um de seus principais concorrentes na cadeia de suprimentos.

Aprovação garantida, mas os desafios continuam

Com a aprovação regulatória em mãos, a Bioregen está a um passo de abrir seu capital. Se for bem-sucedida, a empresa será observada de perto como um termômetro para a indústria de beleza.

Embora marcas farmacêuticas tradicionais chinesas como Pientzehuang e Mayinglong atuem no setor de cosméticos há anos, suas divisões de beleza representam uma parcela pequena do faturamento consolidado, recebendo pouca atenção dos analistas financeiros na avaliação de valor de mercado.

A Bioregen apresenta uma dinâmica diferente: sua divisão de cuidados com a pele já ultrapassa 30% da receita total e estará sob os holofotes do mercado de capitais. O desempenho das ações pós-IPO revelará se os investidores estão dispostos a pagar um prêmio por cosméticos desenvolvidos sob padrões de dispositivos médicos.

A transição da empresa para o mercado de consumo de massa levanta questões importantes para o setor:

Até que ponto a propriedade intelectual e a reputação clínica se traduzem em vendas no varejo? A Bioregen possui 20 patentes de invenção nacionais e 34 patentes internacionais via Tratado de Cooperação em Patentes (PCT), além de presença em milhares de hospitais. No entanto, no mercado de consumo, a percepção imediata de eficácia pelo cliente final pesa mais do que o volume de patentes registradas.

Além disso, mais de 98% das vendas de cosméticos da Bioregen ocorrem em canais digitais. Com o custo de aquisição de clientes em alta e o poder de barganha concentrado nas grandes plataformas de e-commerce, a lucratividade da divisão de skincare continuará vulnerável se a marca não conseguir consolidar um fluxo robusto de tráfego orgânico e recompra espontânea.

A VITREGEN cresceu rapidamente explorando o conceito de "grau médico". Contudo, à medida que mais indústrias farmacêuticas entram no mercado de beleza, esse posicionamento corre o risco de se tornar um jargão comum de marketing em vez de um diferencial competitivo real. O verdadeiro diferencial da Bioregen precisará evoluir de "quem somos" para "quais problemas de pele resolvemos de forma única".

A jornada da Bioregen começou em um laboratório em Changzhou em 2008 e agora alcança as portas da Bolsa de Valores de Pequim. A empresa provou sua capacidade de transferir tecnologia do centro cirúrgico para a rotina de beleza diária. No entanto, consolidar-se no competitivo mercado de consumo de massa é um teste de resistência que a Bioregen ainda está prestando.

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