Creme de PDRN da sul-coreana medicube sob suspeita de conter Vermelho de Sudão
O creme de PDRN da marca sul-coreana medicube foi flagrado pela Alfândega de Hong Kong com Vermelho de Sudão, reacendendo o debate sobre segurança de insumos.
Nove meses após os primeiros escândalos envolvendo o corante Vermelho de Sudão na Ásia, a polêmica volta à tona. Desta vez, a envolvida é a APR, uma das empresas de tecnologia de beleza mais proeminentes da Coreia do Sul.
Recentemente, a Alfândega de Hong Kong emitiu um alerta sobre a medicube, marca de cuidados com a pele pertencente à APR. Testes realizados pelo laboratório do governo revelaram a presença de Vermelho de Sudão — uma substância proibida em cosméticos — no produto "PDRN Pink Peptide Capsule Cream" (Creme de Cápsulas de PDRN).
O comunicado oficial do governo de Hong Kong destacou que o Vermelho de Sudão é um ingrediente estritamente proibido pelas diretrizes de segurança técnica para cosméticos, e sua adição viola a Portaria de Segurança de Bens de Consumo local.
Após a repercussão do caso, a subsidiária da medicube em Hong Kong publicou um comunicado oficial. A marca afirmou que, após a investigação das autoridades, contratou de forma independente a renomada empresa de auditoria Intertek para realizar novos testes no lote, os quais não detetaram a presença do corante.
De um lado, há o laudo oficial de um órgão governamental com autoridade pública; do outro, um relatório de conformidade emitido por uma auditoria privada a pedido da marca. Esse conflito de resultados levanta sérias dúvidas sobre a real qualidade do produto e a origem do ingrediente proibido.
Histórico de controvérsias com o Vermelho de Sudão
A ação da Alfândega de Hong Kong foi motivada por investigações de mercado após denúncias na mídia local. Além de detetar o Vermelho de Sudão, as autoridades constararam que a embalgem do creme exibia adverências apenas em inglês e coreano, sem a tradução obrigatória para o chinês, violando as regulamentações de rotulagem de Hong Kong.
Pela legislação de Hong Kong, qualquer aviso de segurança ou instrução de uso em bens de consumo deve ser apresentado de forma legível em inglês e chinês. A não conformidade pode resultar em multas severas e até mesmo em penas de prisão para os responsáveis pela distribuição.
A medicube Hong Kong reitrou que os testes realiados por laboratórios credenciados na Coreia do Sul também deram negativo para o Vermelho de Sudão. A marca eniou esses laudos para a Alfândega de Hong Kong para análise, mas, até o momento, não houve novas inspeções presenciais por parte do governo.
Esta não é a primeira vez que a medicube enfrenta acusações desse tipo. Em novembro de 2025, a linha de produtos de PDRN da marca já havia sido alvo de rumores semelhantes, os quais foram categoricamente negados pela empresa na época. O creme de cápsulas agora sob investigação faz parte justamente dessa mesma linha de PDRN.
O que mais chama a atenção do mercado é a coincidência temporal na mudança da formulação do produto. Relatos de consumidores em redes sociais apontam que a medicube alterou silenciosamente os ingredientes do "PDRN Pink Peptide Capsule Cream".
Originalmente, a fórmula continha extrato de Eclipta Prostrata, extrato de folha de Melia Azadirachta (Neem) e óleo de semente de Moringa Oleifera. No site oficial da marca na Coreia do Sul, esses três componentes foram substituídos por extrato de raiz de Gromwell (Lithospermum erythrorhizon), embora a versão antiga ainda estivesse sendo comercialiada em alguns mercados internacionaes.
Esses três ingredientes botânicos originais coincidem exatmente com o rastro deixado em um escândalo anterior exposto pela Daby Lab, uma conehcida plataforma independente de testes de consume na China. Naquela ocação, desobriu-se que cosméticoss que combinavam esses três extratoes específicos testavam positivo para o corante proibido Vermelho de Sudão IV.
A medicube Hong Kong admitiu em seu comunicado mais recente ter atualizada a fórmula e informou que a nova versão do creme passou a ser vendida no mercado de Hong Kong a partir de março de 2026.
Outro ponto crítico é que a fórmula antiga utilizava a matéria-prima "CampoRed", fornecida pela Camp o Research (Camp o Cosmetics), uma distribudora de ingredientes registrada em Singapura que foi apontada como a origem do Vermelho de Sudão nos incidentes anteriares no mercado chinês.
Resta saber se a detecção do corante pela Alfândega de Hong Kong se deve a lotes remanescentes da fórmula antiga ainda em circulação ou se reflete uma falha contínua no controle de qualidade da marca. De qualquer forma, a recorrência desse problema em menos de um ano expõe vulnerabilidades sérias na cadeia de suprimentos de marcas globais.
A ascensão da K-beauty e o desafio da conformidade global
A APR, controladora da medicube, consolidou-se como um dos maiores fenômenos recentes da indústria cosmética sul-coreana. Em apenas 18 meses após sua abertura de capital (IPO), a empresa atingiu um valor de mercado superior a 9 trilhões de KRW (wons sul-coreanos), superando gigantes tradicionais como Amorepacific e LG Household & Health Care para liderar o ranking de valor de mercado do setor na Coreia do Sul.
A expansão internacional tem sido o principal motor desse crescimento: em 2025, a receita proveniente de mercados externos saltou de 71% para 89% do faturamento total da APR, registrando uma alta anual de 180%. A linha PDRN, que inclui o creme envolvido na polêmica, acumulou mais de 50 milhões de unidades vendidas no período.
No primeiro semestre de 2026, as vendas da medicube apenas no TikTok Shop atingiram cerca de US$ 107 milhões, superando o volume total de negócios (GMV) de todo o ano de 2025. Durante o Prime Day da Amazon, a marca alcançou recordes históricos de vendas e liderou as buscas na plataforma nos Estados Unidos. Seus dispositivos de beleza e produtos de skincare contam com o endosso de mega-influenciadoras globais como Kim Kardashian, Kylie Jenner e estrelas do K-pop como Jang Wonyoung.
Embora a medicube já tenha iniciado sua operação na China continental por meio de lojas oficiais em plataformas como Tmall (plataforma de e-commerce do grupo Alibaba), Douyin (a versão chinesa do TikTok) e Xiaohongshu (plataforma de estilo de vida e e-commerce), o portfólio de produtos ainda é limitado, e o polêmico creme de PDRN não chegou a ser lançado nesses canais digitais.
No varejo físico, a marca inaugurou sua primeira loja de experiência em Pequim no final de 2025, sinalizando uma aposta firme no mercado de consumo offline do país.
A recuperação recente da beleza coreana no cenário global, impulsionada por conceitos de skincare de alta eficácia e cuidados pós-procedimentos estéticos, é inegável. No entanto, incidentes como o da medicube evidenciam que o crescimento acelerado pode deixar lacunas perigosas na segurança de matérias-primas e na conformidade regulatória.
Como reflexo da preocupação com a segurança dos ingredientes, a Administração Nacional de Produtos Médicos da China (NMPA) oficializou, em janeiro de 2026, um novo método complementar de teste para a detecção de quatro tipos de componentes do Vermelho de Sudão em cosméticos líquidos e cremosos. Essa medida estabelece um padrão analítico rigoroso para blindar o mercado contra contaminações por corantes proibidos.
A segurança em cosméticos não possui fronteiras geográficas. Seja para marcas locais ou gigantes importadas, o uso de substâncias cancerígenas ou aditivos proibidos representa uma linha vermelha intransponível. O sucesso comercial e o engajamento digital não isentam nenhuma empresa do cumprimento estrito das normas de segurança. Assim como o colapso do mito de tráfego da Banmu Huatian rumo ao IPO evidenciou os riscos de negligenciar a conformidade regulatória em busca de crescimento acelerado, o caso da medicube serve como um alerta vital para toda a indústria da beleza: a reputação e a longevidade de uma marca dependem, antes de tudo, da integridade de suas formulações.











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