Shein registra prejuízo de US$ 99 milhões no 1º trimestre sob impacto de tarifas
Com o fim de isenções fiscais nos EUA e novas taxas na Europa, a Shein enfrenta queda nas vendas e prejuízo de US$ 99 milhões antes de seu IPO em Hong Kong.
A varejista de moda e comércio eletrônico Shein registrou um prejuízo líquido de US$ 99 milhões no primeiro trimestre de 2026, de acordo com documentos financeiros preliminares divulgados antes de sua oferta pública inicial (IPO). O resultado negativo foi impulsionado pela desaceleração das vendas após o fim da isenção fiscal para remessas internacionais de baixo valor nos Estados Unidos, somado a uma pesada despesa contábil não recorrente.
Os documentos preparam o terreno para a apresentação a investidores (roadshow) e o processo de reserva de ações (bookbuilding) para o aguardado IPO da companhia em Hong Kong.
Os dados revelam uma reversão abrupta em relação ao primeiro trimestre do ano anterior, quando a Shein havia registrado um lucro líquido de US$ 395 milhões.
Além das barreiras nos EUA, a União Europeia — outro mercado crucial para a gigante do e-commerce — também passou a tributar importações de baixo valor com uma taxa de 3 euros este mês.
A empresa, que hoje tem sede em Singapura mas foi fundada na China, não detalhou no rascunho do prospecto o volume de ações que pretende vender em Hong Kong, o preço de emissão, o cronograma de listagem ou o montante esperado com a captação.
No entanto, a Shein obteve a aprovação da Comissão Reguladora de Valores Mobiliários da China (CSRC) para avançar com a listagem em Hong Kong, após tentativas frustradas de abrir capital em Nova York e Londres. O aval da CSRC indica que a Shein poderá emitir até 341,6 milhões de ações em Hong Kong, com uma expectativa de captação de até US$ 3 bilhões. Esse movimento ocorre em um momento de cautela no mercado financeiro asiático, onde outras empresas do setor de consumo também enfrentam caminhos tortuosos, como o recente caso da Hujia Technology, dona da marca de cosméticos HBN, cujo processo de IPO expirou em Hong Kong.
Os detalhes financeiros oferecem aos investidores uma visão mais clara das pressões enfrentadas pela Shein na busca por capital, em meio ao aumento de custos operacionais, desaceleração do crescimento e um escrutínio regulatório cada vez mais rígido em seus principais mercados.
O prejuízo do primeiro trimestre reflete, em parte, uma mudança nas normas contábeis que exigiu o provisionamento de US$ 328 milhões referentes à variação do valor justo de ações preferenciais resgatáveis e conversíveis. Essas ações, detidas por investidores iniciais, podem ser convertidas em ações ordinárias no futuro, e seu valor contábil costuma oscilar significativamente antes da abertura de capital.
De acordo com o prospecto, o desempenho financeiro da Shein nos últimos três anos fiscais seguiu a seguinte trajetória:
Conhecida globalmente por vender vestidos a US$ 5 e calças jeans a US$ 10 para cerca de 160 países, a Shein viu seu valor de mercado encolher nos últimos anos, à medida que o boom do comércio eletrônico na pandemia arrefeceu e os EUA fecharam brechas alfandegárias cruciais.
Essa perda contábil coincide com uma forte correção no valuation da companhia. Fontes do mercado financeiro indicam que a Shein busca uma avaliação entre US$ 40 bilhões e US$ 50 bilhões para o seu IPO — um patamar distante dos US$ 100 bilhões alcançados em uma rodada de captação em 2022.
No documento, a empresa admite que o fim da regra de minimis nos EUA (seu maior mercado) a partir de maio de 2025 afetou negativamente suas vendas e o crescimento geral, além de elevar as despesas operacionais. Anteriormente, a regra permitia que pacotes com valor inferior a US$ 800 entrassem isentos de impostos no território americano.
Agora, as mercadorias de origem chinesa enviadas aos EUA por meio da plataforma da Shein estão sujeitas a tarifas alfandegárias que variam de 10% a 87,5%. Para lidar com o aumento de tarifas e impostos, a empresa declarou que busca diversas soluções, incluindo o reajuste de preços no mercado americano para compensar parte desses custos adicionais.
Como reflexo direto, a receita da Shein nos EUA caiu 14,3% no primeiro trimestre, somando US$ 2,04 bilhões, contra US$ 2,38 bilhões no mesmo período do ano anterior. A participação do mercado americano no faturamento total caiu para 22,5%, ante os 29,4% registrados em todo o ano de 2023.
A Europa, que representou cerca de um terço da receita da Shein em 2025, também deve sentir o impacto das novas barreiras tarifárias europeias ao longo deste ano. No prospecto, a Shein alertou que a tendência na União Europeia deve se alinhar ou até superar os impactos observados nos EUA após o fim da isenção fiscal.
Em termos anuais, o lucro líquido global da Shein em 2025 caiu 38,7% em relação ao ano anterior, totalizando US$ 2,06 bilhões. A receita cresceu 8%, atingindo US$ 41,85 bilhões, um ritmo de expansão bem mais lento do que os 20,7% registrados em 2024. A margem operacional no primeiro trimestre também recuou de 3,9% para 2,9% na comparação anual.
Ainda assim, o IPO da Shein promete ser um dos maiores eventos do varejo global nos últimos anos. A movimentação atrai a atenção do mercado em um momento no qual muitas marcas de consumo adiaram suas aberturas de capital devido à cautela dos investidores e à perda de poder de compra das famílias de média e baixa renda.
A Shein consolidou seu modelo de negócios baseado no conceito de "ultra fast fashion", alavancando uma cadeia de suprimentos extremamente ágil e flexível na China para abastecer os mercados ocidentais. Com isso, tornou-se uma rival de peso para gigantes tradicionais como a Inditex (dona da Zara) e a H&M.
Apesar do volume de vendas expressivo, a rentabilidade da Shein ainda apresenta uma distância considerável em relação às concorrentes consolidadas. A margem de lucro líquido da empresa é inferior até mesmo à da H&M quando comparados os resultados anuais mais recentes.
Nota: Todos os dados financeiros estão expressos nas moedas reportadas por cada empresa. Devido a diferenças nos calendários fiscais, os números não são perfeitamente comparáveis. Os dados da Inditex e da H&M referem-se aos seus respectivos anos fiscais completos. Embora a Shein lidere em receita bruta entre as três, a Inditex apresenta uma margem de lucro líquido de 15,6%, mais de três vezes superior à da Shein.
A queda acentuada no lucro líquido acende um sinal de alerta sobre os desafios de rentabilidade por trás da rápida expansão global da marca. A avaliação que o mercado de Hong Kong dará à companhia será o principal termômetro para o seu futuro.
Fundada originalmente na cidade chinesa de Nanjing, a Shein detalhou no prospecto que a grande maioria dos produtos fabricados por seus parceiros de fornecimento é armazenada em centros de distribuição unificados na China antes do envio internacional. Em 2025, esses produtos representaram mais de 90% de sua receita líquida.
A empresa planeja utilizar os recursos captados no IPO para aprimorar sua infraestrutura tecnológica, fortalecer a presença de marca, expandir suas operações globais, impulsionar iniciativas de responsabilidade social corporativa e financiar o capital de giro geral.
Entre os investidores pré-IPO da Shein figuram grandes nomes do capital de risco global, como IDG, Sequoia Capital, HongShan, Tiger Global Management, Boyu Capital, Brookfield Capital e General Atlantic.
O fundador da companhia, Sky Xu (Xu Yangtian), atua como presidente do conselho e CEO. Donald Tang, que anteriormente ocupava o cargo de presidente executivo, não foi listado entre os diretores ou executivos seniores no documento atual. A listagem conta com a coordenação global dos bancos Goldman Sachs, Morgan Stanley e JPMorgan Chase.


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