TRESemmé e Unilever enfrentam novos processos por segurança de ingredientes
Ações judiciais contra a Unilever por queda de cabelo reacendem o debate global sobre o uso de conservantes doadores de formaldeído em cosméticos.
Será que um frasco de xampu de baixo custo pode custar milhões de dólares em indenizações para uma gigante global de bens de consumo?
Nos últimos anos, a onda de produtos capilares de alta performance dominou o mercado de beleza. Por ser um segmento de alta frequência de compra e focado em necessidades específicas, a categoria continua atraindo a atenção de investidores e consumidores. Gigantes internacionais como Procter & Gamble (P&G) e Unilever têm disputado agressivamente essa fatia de mercado.
No entanto, por trás desse crescimento, a categoria enfrenta controvérsias regulatórias e de segurança de ingredientes. Muitas dessas disputas estão ligadas a alegações de eficácia, como produtos antiqueda, resultando em problemas para marcas conhecidas devido a formulações, matérias-primas ou rotulagem em desacordo com as normas.
Em 21 de julho, seis mulheres nos Estados Unidos abriram um processo contra a Unilever, alegando que sofreram queda de cabelo, afinamento capilar, reações alérgicas e outros efeitos colaterais no couro cabeludo após utilizarem xampus ou condicionadores da marca TRESemmé.
As autoras da ação alegam que a empresa agiu de forma negligente ao continuar utilizando o conservante DMDM hidantoína (DMDM hydantoin) em produtos capilares da TRESemmé, mesmo ciente de que o ingrediente poderia causar tais reações. A Unilever já havia enfrentado disputas semelhantes há mais de uma década.
O foco central da disputa é o conservante DMDM hidantoína, um doador de formaldeído. O formaldeído livre é classificado como carcinógeno do Grupo 1 (potencialmente cancerígeno para humanos) pela Agência Internacional de Pesquisa em Câncer (IARC).
O ingrediente é conhecido por poder desencadear dermatite de contato e irritações na pele e no couro cabeludo. A exposição repetida pode aumentar a probabilidade de sensibilização e reações alérgicas imunológicas, o que tem motivado uma série de processos judiciais de consumidores contra marcas de cuidados capilares em todo o mundo.
Em resposta a essas preocupações, a equipe de reportagem entrou em contato com o atendimento ao cliente da loja oficial da TRESemmé na plataforma de e-commerce chinesa JD.com (operada em parceria com a rede de drogarias Mannings). Os atendentes informaram que as fórmulas dos produtos atualmente comercializados no mercado chinês não contêm esse ingrediente.
O histórico de segurança nos produtos da Unilever
O caso teve início em 14 de julho, quando seis mulheres residentes nos estados de Oklahoma, Maine, Alabama, Virgínia Ocidental, Texas e Massachusetts moveram a ação no Tribunal Federal do Distrito de Nova Jersey contra a Conopco, divisão da Unilever.
Na petição inicial, as autoras apresentam quatro alegações principais: defeito de concepção e fabricação dos produtos; falha no dever de alertar adequadamente os consumidores sobre os riscos (negligência); pedido de indenização por despesas médicas, danos pessoais, danos morais e danos punitivos; e publicidade enganosa, uma vez que a marca promove os produtos como nutritivos e reparadores, omitindo os riscos de queda de cabelo e alergias.
Este processo não é um caso isolado, mas o capítulo mais recente de uma série de disputas de responsabilidade civil que já dura mais de uma década envolvendo a segurança dos produtos capilares da Unilever.
Em 2012, a linha Suave da Unilever enfrentou uma ação coletiva nos EUA devido ao uso de DMDM hidantoína, com consumidores relatando queda de cabelo, quebra dos fios e queimaduras no couro cabeludo. Após investigações da Food and Drug Administration (FDA), que constataram publicidade enganosa sobre a ausência de formaldeído, a marca retirou os produtos do mercado e realizou o recall de mais de 380 mil unidades.
Em 2014, a Unilever fechou um acordo de US$ 10,2 milhões para encerrar o litígio, criando fundos para reembolsos e indenizações por danos pessoais.
Contudo, as disputas não cessaram. O tribunal e a entidade ré no novo processo são os mesmos de uma ação de responsabilidade civil de 2023 contra a marca TRESemmé.
Em janeiro de 2023, a consumidora Maddox processou a Unilever alegando que o uso prolongado de produtos TRESemmé causou queda de cabelo irreversível. Na ocasião, a Unilever contestou as alegações, negando o nexo de causalidade entre os ingredientes do produto e os danos relatados. Em maio de 2026, o tribunal aceitou a defesa da Unilever e rejeitou a ação de Maddox.
Além da Unilever, outras grandes marcas como Johnson & Johnson, Wen by Chaz Dean, Paul Mitchell e Keratin Complex já enfrentaram ações coletivas semelhantes devido ao uso de DMDM hidantoína.
O escrutínio remonta a pelo menos 2009, quando organizações de defesa do consumidor denunciaram o uso de DMDM hidantoína e outros conservantes doadores de formaldeído no xampu infantil da Johnson & Johnson, apontando uma disparidade de padrões de segurança entre diferentes mercados globais. Após anos de pressão pública, a J&J confirmou em 2012 que esses conservantes liberavam formaldeído e se comprometeu a eliminá-los de seus produtos infantis até 2013, e dos produtos para adultos até 2015.
Embora a linha infantil tenha sido reformulada no prazo, a marca OGX, adquirida posteriormente pela J&J, continuou utilizando o ingrediente, o que gerou novos litígios a partir de 2016.
Vale ressaltar que a DMDM hidantoína não é um ingrediente proibido pelas autoridades regulatórias globais, mas o debate sobre sua segurança continua ativo na indústria. Organizações como a Public Citizen já protocolaram petições junto à FDA solicitando uma reavaliação formal da segurança do composto.
Recentemente, a Unilever enfrentou novas ações judiciais alegando que o conservante DMDM hidantoína causou queda de cabelo. Embora a ciência dos cosméticos frequentemente aponte que a dose faz o veneno e que as alegações colidem com a ciência, a pressão jurídica e de relações públicas continua intensa.
Gigantes da beleza sob o escrutínio de segurança
A TRESemmé, marca afetada pelo processo, possui forte presença no mercado global. Fundada em 1948 pela cabeleireira e empresária Edna Emmé, a marca posicionou-se historicamente no segmento de salões de beleza premium.
Com foco no conceito de "maquiagem capilar", a marca expandiu seu portfólio com produtos como sprays de volume, protetores térmicos e óleos finalizadores, com preços competitivos no mercado internacional.
Embora a marca reivindique a liderança de vendas no segmento de finalização capilar profissional nos EUA e globalmente, relatórios financeiros recentes da Unilever indicam um desempenho abaixo do esperado. No primeiro semestre de 2025, a TRESemmé foi apontada como um dos fatores que desaceleraram o crescimento da divisão de cuidados capilares da companhia, registrando apenas uma leve recuperação no terceiro trimestre de 2025.
No mercado chinês, a TRESemmé investiu fortemente em marketing digital, abrindo lojas oficiais em plataformas como o Tmall da Alibaba, contratando celebridades locais como Chris Lee e Jiang Xin como embaixadoras da marca, e realizando ações de merchandising na popular série de TV Ode to Joy 2.
Apesar de sua longa trajetória, a TRESemmé ilustra como a segurança dos ingredientes continua sendo um tema extremamente sensível para os consumidores em um mercado de beleza altamente dinâmico e competitivo.
Essa preocupação não se limita a uma única marca. Nos últimos anos, diversas multinacionais de cosméticos enfrentaram crises de reputação e litígios bilionários relacionados à segurança de suas formulações, mostrando que mesmo marcas tradicionais não estão imunes ao aumento do rigor regulatório e à vigilância dos consumidores.
Desde 2007, pelo menos dez grandes crises de ingredientes ganharam destaque global, envolvendo gigantes como Johnson & Johnson, L'Oréal, Estée Lauder e Shiseido. O caso do talco infantil da J&J é um dos mais emblemáticos da história do setor.
Os processos envolvendo o talco da Johnson & Johnson começaram em 1986, mas ganharam escala a partir de 2011. Milhares de consumidoras alegaram que o uso contínuo do produto causou câncer devido à contaminação por amianto. O caso resultou em decisões judiciais históricas, incluindo uma indenização de US$ 4,69 bilhões a 22 mulheres determinada por um tribunal do Missouri em 2018. Diante da pressão e dos custos judiciais, a J&J optou por descontinuar globalmente a produção de talco infantil à base de talco mineral, substituindo-o por amido de milho.
Além dos doadores de formaldeído e do talco, outras substâncias como a parafenilenodiamina (PPD) em tinturas de cabelo (frequentemente associada a reações alérgicas graves em marcas da L'Oréal), contaminação por benzeno (que afetou aerossóis da Unilever e J&J) e a presença de substâncias per e polifluoroalquiladas (PFAS) têm sido alvo de intensos debates regulatórios.
O mercado de cuidados capilares, embora em forte expansão, enfrenta desafios crescentes de conformidade. Na China, marcas locais como Shilang, KF e Facai Di já foram alvo de sanções por parte dos órgãos de vigilância sanitária devido à presença de matérias-primas proibidas ou contaminação microbiológica.
Além disso, marcas nativas digitais e influenciadoras também têm sido autuadas por excesso de conservantes ou publicidade enganosa, evidenciando lacunas no controle de qualidade da cadeia de suprimentos e na conformidade regulatória.
Para as marcas de beleza, gerenciar essas crises de formulação e segurança exige uma resposta técnica rápida. Especialistas como Laura Lam-Phaure, que assessora marcas em crises técnicas e regulatórias, destacam a importância de auditorias rigorosas de ingredientes para evitar litígios dispendiosos.
O caso recente da TRESemmé reforça que, independentemente da maturidade da marca ou de sua participação de mercado, o controle rigoroso de formulação e a segurança dos ingredientes continuam sendo a linha de base inegociável para a sobrevivência no mercado global de cosméticos.








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