Laura Lam-Phaure revela como resolve as maiores crises técnicas em cosméticos
A química cosmética Laura Lam-Phaure explica como ajuda marcas de beleza a resolver crises de formulação, testes de eficácia e escalabilidade industrial.
Quando Laura Lam-Phaure atende a um telefonema ou recebe um e-mail, geralmente não são boas notícias. Quando as marcas de beleza entram em contato com ela, o cenário costuma ser crítico: um produto que está se separando na embalagem, uma alegação de marketing sob investigação regulatória, uma suspeita de contaminação microbiana ou até mesmo um processo judicial em andamento. Sua função é diagnosticar o problema, avaliar os riscos e traçar um plano de ação.
Formada em química cosmética, Lam-Phaure fundou o LPB Group em 2024, após acumular mais de uma década de experiência na indústria da beleza, com passagens pela Pixi Beauty, pela incubadora SOS Beauty e pela fabricante terceirizada Product Society. Ao longo de sua trajetória, ela percebeu que as marcas frequentemente carecem de uma consultoria técnica independente. Embora fabricantes, fornecedores e outros parceiros atuem de boa-fé, suas recomendações inevitavelmente refletem seus próprios interesses comerciais.
Ela também observou que as equipes de desenvolvimento de produtos são constantemente desviadas para resolver problemas de fabricação, testes e controle de qualidade que fogem de sua especialidade. Em vez de focar na inovação, esses profissionais acabam "apagando incêndios" ao longo do processo de desenvolvimento. Quando esses desafios saem do controle, as marcas recorrem a Lam-Phaure.
"As pessoas me procuram quando precisam de uma reação imediata a uma crise, mas continuam comigo quando percebem o valor de agir de forma preventiva", afirma ela.
Atualmente, o LPB Group atende cerca de seis clientes fixos, além de marcas adicionais por projeto. Lam-Phaure está estruturando o que descreve como um departamento técnico terceirizado para marcas de beleza, oferecendo expertise em pesquisa e desenvolvimento (P&D), controle de qualidade, assuntos regulatórios e comercialização a partir de aproximadamente US$ 4.000 por mês — uma fração do custo de manter uma equipe técnica interna.
O LPB Group está captando uma rodada seed de US$ 600.000 para expandir suas operações e contratar mais talentos técnicos. Entre seus conselheiros estão Gloria Lu e Victoria Fu, cofundadoras da Chemist Confessions, Nick Dindio, vice-presidente de inovação da Concept Labs, e Ali Witwit, ex-executivo da Azelis.
Nesta entrevista do setor, a Beauty Independent conversou com Lam-Phaure sobre a evolução do papel dos químicos cosméticos, os gargalos no ganho de escala de produção, os riscos de priorizar a velocidade de lançamento (speed to market), o que os investidores avaliam em processos de aquisição e os maiores desafios técnicos que ela já enfrentou.
Quais tipos de problemas costumam levar as marcas até você?
As marcas me procuram quando estão em apuros. Pode ser um problema de estabilidade, incompatibilidade de embalagem, contaminação, alegações enganosas, restrições de ingredientes, falhas de fabricação, processos judiciais ou defeitos que exijam recall ou reformulação. Meu papel é entrar em cena e descobrir como corrigir a rota.
Às vezes, é uma questão puramente técnica. Quando você passa de um lote piloto de 5.000 unidades para uma produção de 50.000, a fórmula pode não responder bem ao ganho de escala. É preciso entender como viabilizar essa transição para a escala industrial.
Meu dia a dia envolve muita resolução de problemas, ajudando as marcas a adotarem medidas preventivas para garantir que seus produtos não sofram recalls ou recebam avaliações negativas na internet.
O papel dos químicos cosméticos mudou bastante. O que você tem observado no mercado?
Se você perguntar a profissionais na faixa dos 50 ou 60 anos, a maioria dirá que se candidatou a uma vaga genérica e acabou formulando cremes por acaso. Hoje, as pessoas se tornam químicas cosméticas porque são obcecadas por produtos. Elas escolhem essa carreira por paixão, não por acidente.
O problema é que muitos percebem que os salários iniciais não são atraentes. Cargos de nível júnior nos EUA costumam pagar entre US$ 40.000 e US$ 60.000 por ano, e muitos dos principais polos de fabricação ficam em regiões com custo de vida altíssimo, como Los Angeles.
Com isso, muitos profissionais ganham experiência e percebem que podem vender a propriedade intelectual (PI) de suas fórmulas. Quando você trabalha em um fabricante terceirizado, a PI pertence à fábrica. Como freelancer, você pode cobrar taxas de desenvolvimento e vender a PI da fórmula. Alguns cobram mais de US$ 10.000 por fórmula, além dos custos de desenvolvimento, o que permite faturar em um trimestre o que ganhariam em um ano inteiro como funcionários.
Acredito que muitos fabricantes terceirizados subestimam o valor do químico na organização. Para ser químico, é preciso alinhar rigor técnico e criatividade. Não se trata apenas de replicar fórmulas em massa.
Qual é o problema de produto mais recorrente que você encontra?
Um dos problemas mais comuns está relacionado às alegações de rotulagem (claims). Marcas independentes e emergentes nem sempre sabem como manter a conformidade regulatória. Eu as ajudo a entender o que podem ou não prometer na embalagem. Dizer que um cosmético promove a "renovação celular", por exemplo, entra no território de medicamentos.
A recuperação da barreira cutânea é um ótimo exemplo. Está muito na moda usar ingredientes focados nisso e afirmar: "Este produto repara a sua barreira". Legalmente, você não pode dizer que "repara", pois isso implica uma ação terapêutica ou de cura na pele, o que caracteriza um medicamento. O correto é dizer que o produto "auxilia" ou "apoia" a barreira cutânea. Se a marca fizer questão de usar a alegação de reparação, precisará realizar testes clínicos específicos, como a medição da perda de água transepidérmica (TEWL).
Se uma marca quer uma alegação mais forte, eu explico que é possível, desde que ela invista nos testes necessários. A decisão passa por avaliar quais testes são exigidos, quanto custam e se o investimento faz sentido para o posicionamento da marca.
Quais exigências de testes as marcas costumam interpretar mal?
O grande desafio com os testes é que não existe um padrão legal rígido sobre quais exames realizar. A indústria cosmética estabeleceu certas convenções sobre o que é essencial, mas tudo depende da fórmula e das alegações que se deseja fazer.
Muitas marcas não sabem quais testes solicitar e simplesmente aceitam o que o fabricante terceirizado sugere, o que nem sempre é o mais adequado. Nos EUA, a FDA exige apenas que a marca garanta que o produto é seguro antes de entrar no mercado. Como comprovar essa segurança fica a critério da empresa.
Costumo pedir à equipe de marketing a lista de alegações dos sonhos e, a partir daí, faço o caminho inverso. Se for um creme para a área dos olhos, por exemplo, recomendo testes de estabilidade, compatibilidade de embalagem, teste de contato (patch test), teste de eficácia de conservantes (desafio microbiológico) e segurança ocular. Com isso, definimos quais testes adicionais são necessários para sustentar as alegações de marketing dentro do orçamento disponível.
Você mencionou problemas na transição para a escala industrial. Pode dar um exemplo?
Trabalhei em um bronzer cremoso em que algumas unidades apresentavam manchas e outras variavam de tom, mesmo pertencendo ao mesmo lote. O pigmento não estava se mantendo suspenso de forma homogênea durante o envase. Tivemos que analisar o processo e ajustar os parâmetros para garantir que os pigmentos ficassem perfeitamente distribuídos durante toda a produção.
Esse é um desafio clássico. Uma fórmula pode se comportar perfeitamente em um lote piloto de laboratório, mas, ao passar para reatores industriais de grande porte, surgem problemas de homogeneidade e estabilidade física que eram imperceptíveis antes.
Quais lições as marcas devem tirar de casos de contaminação e recalls?
Toda matéria-prima que entra em uma fábrica de cosméticos deve passar por testes microbiológicos se for à base de água e propensa ao crescimento de fungos, leveduras ou bactérias. Ela deve ser colocada em quarentena e só liberada para a produção após a aprovação nos testes.
Esse é um dos processos mais negligenciados quando se busca velocidade. Se o fabricante está sob pressão para entregar rápido, a matéria-prima pode ser utilizada antes mesmo da liberação da quarentena. Por isso, auditar os fabricantes terceirizados e entender seus protocolos de controle de qualidade é fundamental.
Eu ajudo as marcas a avaliarem os sistemas de qualidade dos parceiros industriais para garantir que a produção siga padrões rigorosos. Casos de contaminação quase sempre decorrem de falhas processuais ou da pressa em pular etapas.
Qual foi o caso de maior risco que você já foi chamada para resolver?
Uma marca me procurou porque estava sendo processada por uma suposta contaminação de produto. Eles já estavam prontos para fazer um acordo financeiro, assumindo que a acusação era verdadeira. Quando assumi o caso, comecei a analisar detalhadamente os dados e o histórico do lote.
Quanto mais investigávamos, mais inconsistências encontrávamos. Realizamos novos testes laboratoriais e analisamos as evidências com rigor científico. No final, os testes provaram que não havia contaminação alguma. Todos haviam presumido o pior apenas com base na petição inicial do processo. Quando substituímos as suposições por dados concretos, o cenário mudou completamente.
O processo judicial acabou sendo arquivado. Isso reforça algo que sempre digo às marcas: seja em um caso de contaminação, problemas com alegações ou falhas de fabricação, você precisa entender a ciência por trás do ocorrido antes de tomar decisões. Os dados devem guiar a resposta. Casos assim mostram como processos judiciais baseados em alegações sem fundamento científico podem prejudicar marcas que não possuem uma defesa técnica robusta.
Você também ajuda marcas a se prepararem para aquisições. O que costuma ser mais auditado durante a due diligence técnica?
Do ponto de vista técnico, avalia-se toda a propriedade intelectual e os ativos que a marca de fato possui. Se há fórmulas importantes cuja PI não pertence à marca, precisamos avaliar se a aquisição desses direitos aumentará o valor da empresa. Se for o produto mais vendido (bestseller), é fundamental ter o controle total da fórmula.
Muitas vezes, ao solicitar a PI a um fabricante, a marca não sabe quais documentos técnicos exigir. Já vi terceiristas enviarem documentos básicos dizendo "aqui está sua fórmula", e eu olho e pergunto: "Onde está o resto? Eu sou química e não conseguiria reproduzir o produto com isso". Há uma série de documentos de fabricação, especificações de matérias-primas e processos que as marcas precisam manter organizados.
Os investidores também buscam um programa robusto de controle de qualidade que garanta a reprodutibilidade e a escalabilidade dos produtos sem perdas financeiras. Às vezes, uma marca é adquirida e o novo proprietário precisa reformular todo o portfólio porque as fórmulas originais não eram viáveis industrialmente ou eram caras demais para produzir em larga escala. Esse tipo de reestruturação técnica e de posicionamento é comum quando marcas buscam se adequar às exigências de grandes redes de varejo, como vimos no recente rebranding da Curie para acompanhar a sofisticação do varejo.
Também realizamos avaliações de risco de segurança para identificar quais produtos têm menos testes documentados e o que precisa ser atualizado para mitigar passivos jurídicos. Quando uma marca apresenta sua documentação técnica a investidores, ela deve provar que suas fórmulas são escaláveis, seguras e que sua propriedade intelectual está devidamente protegida.
Qual é o tamanho do risco que as marcas assumem ao priorizar a velocidade de lançamento?
Para o desenvolvimento de um produto totalmente personalizado, o prazo mais rápido que já vi até o lançamento é de cerca de seis meses. Para atingir essa velocidade, as marcas quase sempre precisam pular etapas. Muitas vezes, assinam termos de responsabilidade e iniciam a produção industrial antes mesmo da conclusão dos testes de estabilidade e segurança, assumindo todo o risco financeiro.
Por exemplo, o teste de eficácia de conservantes pode ainda estar em andamento quando o envase começa. Se o teste falhar semanas depois, todo aquele lote vira lixo e a marca arca com o prejuízo total.
Existe uma falsa segurança de que "basta assinar um termo de isenção". É preciso entender a gravidade do risco. O fabricante terceirizado quer que você assine o termo porque, uma vez produzido o lote, ele pode faturar o serviço. Meu papel é garantir que as marcas compreendam exatamente o tamanho do risco antes de tomar essa decisão.
O que pode dar errado quando as marcas substituem um ingrediente em uma fórmula existente?
Substituir uma matéria-prima após o lançamento de um produto é extremamente complexo. Se você altera a composição, precisa tratar o produto como uma nova fórmula. Isso pode exigir novos testes de segurança, estudos clínicos, testes de alegações e pesquisas de percepção do consumidor.
As marcas costumam ter pressa, mas é indispensável voltar ao lote piloto e escalar a produção gradualmente. Se for o produto mais vendido do portfólio, você não pode simplesmente saltar para um lote industrial gigante, pois qualquer desvio pode resultar em um prejuízo financeiro enorme.
A substituição de matérias-primas ocorre com mais frequência do que se imagina. Ingredientes são descontinuados, fornecedores saem do mercado ou as marcas precisam buscar alternativas mais econômicas ou sustentáveis. Minha função é avaliar se a substituição é realmente equivalente (1:1), quais testes precisam ser refeitos e quais riscos estão envolvidos.
Muitas vezes, os próprios consumidores percebem a diferença. Eles comentam: "Comprei este produto novamente e a textura parece diferente". Na maioria das vezes, isso acontece porque alguma matéria-prima foi alterada no meio do caminho.
Com a inteligência artificial ganhando espaço no desenvolvimento de produtos, onde você acha que ela ainda falha?
O desenvolvimento de fórmulas tem um componente artístico e criativo essencial. Tecnicamente, você pode misturar uma lista de ingredientes sugerida por um algoritmo e obter um creme, mas isso não garante que o consumidor vá amar a experiência sensorial do produto. É muito difícil criar um produto voltado para a experiência humana sem que um ser humano faça parte do processo de criação.
Além disso, a IA ainda falha em compreender as nuances das matérias-primas. Ela pode sugerir o uso de um carbômero ou de manteiga de karité, mas existem dezenas de variações desses ingredientes no mercado, e cada uma se comporta de maneira completamente diferente dependendo do sistema da fórmula.
Grande parte desse conhecimento prático não está disponível na internet. Ele vem da experiência de bancada, da parceria com fornecedores e da compreensão de como os materiais se comportam na prática industrial. A IA pode oferecer sugestões iniciais, mas ela não consegue resolver problemas críticos em tempo real no chão de fábrica quando um lote começa a desestabilizar.
Você está captando uma rodada seed. Qual é a visão de futuro para o LPB Group?
O que estou construindo ainda não existe no mercado. Quero criar uma infraestrutura técnica moderna para a indústria da beleza que reúna, em um único ecossistema, expertise científica, auditoria de qualidade independente, suporte regulatório e capacidade laboratorial para apoiar as marcas durante todo o ciclo de vida do produto.
Acredito que marcas de qualquer porte merecem acesso a um suporte técnico de alto nível. Hoje, apenas as grandes multinacionais conseguem manter departamentos dedicados de P&D, qualidade e regulatório. Meu objetivo é democratizar esse acesso para marcas independentes e emergentes, sem que elas precisem arcar com o custo fixo de uma estrutura científica própria.
Os recursos captados serão direcionados para tecnologia e contratação de talentos. Já conto com cinco conselheiros técnicos e o plano é estruturar uma equipe multidisciplinar robusta, para que as marcas possam acionar especialistas em regulatório, qualidade, formulação ou engenharia de processos sob demanda, em um modelo de serviço unificado.
Nossa meta é atingir uma margem de lucro de 35% a 36% em dois anos, com projeção de longo prazo de 45%. Acredito que este modelo de negócios tem potencial para se tornar uma operação multimilionária, ajudando marcas a evitarem erros extremamente caros e a desenvolverem produtos superiores.



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