A verdade sombria por trás dos cosméticos ancestrais que viralizaram na China
Uma investigação expõe a cadeia ilegal de cosméticos "ancestrais" na China, que usam ingredientes proibidos e causam graves danos à pele dos consumidores.
Dezenas de milhares de unidades vendidas por mês a preços extremamente baixos. Essa é a realidade dos cosméticos virais que inundam as plataformas de e-commerce chinesas sob o pretexto de seguir "fórmulas ancestrais", mas que, na verdade, carecem de qualquer embasamento científico.
Recentemente, uma reportagem da CCTV Finance (emissora estatal de economia da China) expôs o caos por trás desses produtos de cuidados com a pele, revelando apenas a ponta do iceberg de um mercado paralelo altamente lucrativo e perigoso.
Segundo a reportagem, cremes faciais como o "Qizibai" (uma fórmula clareadora tradicional), promovidos em transmissões ao vivo como "receitas imperiais milenares" e "ervas feitas à mão", têm deixado um rastro de consumidores com rostos inchados, bolhas e queimaduras químicas. Sob a promessa de um tratamento fitoterápico suave, escondem-se riscos graves: uso de matérias-primas fotossensíveis proibidas, falsificação de licenças e terceirização ilegal por fábricas autorizadas.
No mercado de beleza chinês, táticas que envolvem fórmulas de ervas feitas à mão, cremes personalizados contra manchas e kits clareadores de salão continuam a atrair consumidores desavisados por meio de alegações falsas, aditivos ilegais e evasão fiscal e regulatória.
Para Rex, formulador de cosméticos e influenciador do setor de beleza, a persistência dessas práticas ilegais tem uma explicação clara: "Esses produtos irregulares prosperam porque atendem a dores reais dos consumidores que o mercado formal muitas vezes não resolve de imediato. Além disso, a ansiedade estética faz com que as pessoas busquem resultados milagrosos e rápidos, abrindo espaço para produtos adulterados com hormônios ou metais pesados."
O esquema ilegal por trás dos cosméticos "ancestrais" sem registro
A linha "Qizibai", promovida como uma "fórmula imperial milenar, 100% herbal e livre de químicos" com forte poder clareador, é amplamente comercializada em plataformas de e-commerce, transmissões ao vivo (live commerce) e clínicas de estética de bairro.
Atraídos pelo apelo do clareamento natural, muitos consumidores relatam dores intensas, vermelhidão generalizada, coceira e descamação logo após o uso. Em casos mais graves, as lesões na pele exigiram atendimento médico de emergência.
A campanha de marketing do "Qizibai" baseia-se em uma suposta receita tradicional composta por sete ervas medicinais chinesas de cor branca (como Atractylodes macrocephala e Angelica dahurica). Vendida como uma máscara facial nutritiva e clareadora, a fórmula rapidamente se tornou um fenômeno de vendas nas redes sociais.
No entanto, de acordo com o Catálogo de Ingredientes de Origem Animal e Vegetal Proibidos em Cosméticos da China, a Angelica dahurica (conhecida localmente como Baizhi), ingrediente central da fórmula, é expressamente proibida para uso cosmético.
Li Jincong, fundador de uma plataforma chinesa de conformidade regulatória para cosméticos, explica a legislação: "Para produzir cosméticos, é obrigatório obter uma licença de fabricação e registrar o produto junto aos órgãos reguladores. Não existe isenção para produtos artesanais se eles forem comercializados. Classificar o produto como 'item de cuidados externos de saúde' para tentar escapar da regulamentação de cosméticos é ilegal."
Além disso, órgãos de vigilância sanitária de várias províncias emitiram alertas de risco. A Angelica dahurica possui propriedades altamente fotossensíveis. Quando aplicada na pele e exposta à luz solar, ela pode desencadear dermatite fototóxica grave, resultando em bolhas, eczema recorrente e hiperpigmentação irreversível — a causa direta das lesões relatadas pelos consumidores.
A investigação jornalística revelou que essa prática ocorre tanto no ambiente online quanto no físico. Em transmissões ao vivo no Douyin (a versão chinesa do TikTok), influenciadores moem as ervas em tempo real diante das câmeras para promover o conceito de "frescor e zero aditivos", utilizando o ingrediente proibido de forma aberta e ilegal.
Em clínicas de estética físicas e spas de ervas em cidades como Wuhan, o uso dessas máscaras caseiras com ingredientes proibidos é oferecido como o principal tratamento da casa, com os estabelecimentos omitindo deliberadamente os riscos de alergia e toxicidade.
A reportagem aponta que a maioria dos produtos "Qizibai" em circulação não possui licença, registro ou testes de qualidade. O Artigo 38 do Regulamento de Supervisão e Administração de Cosméticos da China proíbe expressamente que comerciantes formulem ou misturem cosméticos por conta própria no ponto de venda.
Seguindo as pistas de um creme facial "Qizibai" muito vendido, a equipe de reportagem realizou uma investigação disfarçada na Jiangxi Chuanhui Herbal Biotechnology Co., Ltd., uma fábrica que possui licença regular de produção cosmética.
Inicialmente, o responsável pela fábrica negou produzir o item. No entanto, após os repórteres simularem o interesse em um pedido de grande escala, ele revelou o esquema: como o produto contém a erva proibida e não pode receber o registro sanitário obrigatório, a fábrica produz e envasa apenas a massa do creme. A rotulagem e a embalagem final ficam a cargo do distribuidor, dividindo o processo para burlar a fiscalização. Um único distribuidor chega a vender mais de 10 mil frascos desse creme irregular em apenas dois ou três meses. Para enganar os consumidores, o atendimento ao cliente das lojas online afirma que "produtos artesanais não são classificados como cosméticos e não precisam de registro".
A investigação também visitou a Nanyang Jinkui Yaolue Biotechnology Co., Ltd., que fabrica em massa produtos "ancestrais" como cremes à base de banha de porco e folhas de caqui. O diretor da empresa confessou que a suposta "fórmula imperial secreta" é apenas um truque de marketing. A base do produto é banha de porco — ingrediente que não consta no catálogo oficial de matérias-primas cosméticas autorizadas, impossibilitando qualquer avaliação de segurança ou registro regular.
Para contornar as leis de cosméticos, essas empresas registram os produtos como "itens de uso externo para a saúde", reduzindo drasticamente os custos de conformidade regulatória. Quando os consumidores reclamam de queimaduras ou reações alérgicas, os vendedores alegam falsamente que se trata de um processo de "desintoxicação da pele" para convencê-los a continuar o uso, agravando as lesões. Chegam a inventar argumentos absurdos, como afirmar que "a presença de larvas no produto prova que ele é 100% natural e livre de conservantes".
Vale destacar que a Jiangxi Chuanhui Herbal Biotechnology já possui um histórico de infrações regulatórias. Embora tenha uma licença de produção ativa, a empresa foi autuada em 2020 por apresentar quatro falhas graves e nove falhas gerais em suas instalações, além de documentação incompleta em diversos registros de cosméticos.
Já a Nanyang Jinkui Yaolue Biotechnology, fundada em 2023, operava sob esse modelo de marketing enganoso desde a sua criação, estruturando toda a sua operação em torno da ilegalidade até ser exposta pela reportagem.
Essa cadeia ilegal — que vai desde a fabricação terceirizada (OEM) na origem, passa pelo fracionamento e rotulagem por distribuidores, até a venda final em lives e clínicas — revela como marcas exploram o apelo emocional da "medicina tradicional" para vender produtos sem registro com ingredientes proibidos, enganando o consumidor e burlando as autoridades.
Sobre como esse marketing pseudocientífico distorce a percepção pública, o formulador Rex comenta: "Promessas de fórmulas artesanais milagrosas com efeito imediato são logicamente impossíveis. A eficácia dos cuidados com a pele exige ciclos biológicos e condições específicas. A maioria dessas receitas de família não possui nenhum efeito real."
Munchkin, especialista em comunicação científica do Chaogui Research Institute, acrescenta: "As marcas se aproveitam do desejo do consumidor por produtos naturais e de sua ansiedade por resultados rápidos. Sem a devida fiscalização, elas exageram as alegações de eficácia. A raiz desse problema está na forte assimetria de informação no mercado."
Apesar das denúncias, muitos desses produtos continuam ativos em grandes plataformas de e-commerce chinesas, como Tmall e JD.com. Máscaras de argila "Qizibai" e pós faciais de uso profissional chegam a figurar no top 5 de rankings de produtos clareadores e antirrugas, mas a maioria apresenta irregularidades graves em seus registros. Enquanto o mercado formal se profissionaliza, a proliferação dessas marcas sem registro mostra os desafios que as empresas enfrentam ao tentar entender como navegar na nova era do mercado de beleza chinês, onde a conformidade regulatória estrita tornou-se um divisor de águas essencial.
Uma busca nos sistemas de registro revela que, embora alguns pós de argila anunciem conter apenas ingredientes permitidos, eles utilizam o mesmo número de registro de produtos já cancelados pelas autoridades de saúde, uma prática comum de falsificação de licenças.
As seis grandes armadilhas do mercado de beleza viral
Com a rápida expansão do live commerce e de canais de venda privados (como grupos de WeChat, o aplicativo de mensagens mais popular da China), cosméticos de baixo custo e fórmulas artesanais ganharam força rapidamente. No entanto, por trás desse crescimento, produtos sem registro que operam em zonas cinzentas regulatórias continuam a inundar o mercado, resultando em um aumento expressivo de queixas sobre danos à pele, contaminação por metais pesados e publicidade enganosa.
Uma análise de processos administrativos e decisões judiciais na China revela seis grandes armadilhas comuns no mercado de beleza viral. Muitas dessas mercadorias já foram apreendidas e destruídas, com influenciadores e lojistas multados ou, em casos mais graves, condenados criminalmente.
1. Cosméticos artesanais de ervas: moagem ao vivo com ingredientes proibidos ou produção sem licença.
Além dos casos citados, em junho deste ano, a empresa Jinxiu Yaoniang Trading Co., Ltd. foi multada e teve seus produtos apreendidos por fabricar e vender um xampu fitoterápico sem possuir licença de produção de cosméticos ou registro sanitário básico.
Munchkin explica a complexidade regulatória desses produtos: "A definição de sabonetes e xampus artesanais ainda é uma zona cinzenta. Se o produto promete apenas limpeza básica, é tratado como item de higiene comum. No entanto, se alegar propriedades clareadoras, antiacne ou proteção solar, ele entra obrigatoriamente na categoria de cosméticos e exige registro estrito."
2. Fórmulas personalizadas ilegais: cremes clareadores adulterados com hormônios.
A emissora nacional CCTV expôs recentemente golpes envolvendo "skincare personalizado", onde influenciadores se passam por dermatologistas para vender fórmulas manipuladas sem registro. Em um dos casos judiciais, a empresa foi condenada a indenizar a consumidora lesada após causar sérios danos à sua barreira cutânea.
O dermatologista Dr. Bing Han, doutor pela Universidade de Tongji, aponta as causas: "A busca desenfreada pelo lucro faz com que comerciantes corram riscos extremos para atender à demanda irreal dos consumidores por resultados imediatos. A falta de educação científica sobre cuidados com a pele alimenta essa expectativa equivocada, sustentando o mercado de produtos adulterados."
3. Réplicas e "dupes" de maquiagem de luxo sem registro.
Em um caso julgado recentemente, autoridades desmantelaram uma fábrica clandestina que produzia réplicas em miniatura de batons e maquiagens de marcas de luxo como Dior, YSL e NARS. Vendidos online como "alternativas baratas" (os famosos dupes), os produtos não tinham identificação de fabricante, ingredientes ou registro.
Testes laboratoriais revelaram níveis alarmantes de metais pesados e contaminação bacteriana, causando reações alérgicas graves nos olhos e lábios dos consumidores. O caso resultou em condenações de prisão para os envolvidos, multas pesadas e a destruição de todo o estoque apreendido.
Li Jincong alerta que as multas atuais muitas vezes não são suficientes para desencorajar a prática devido às altas margens de lucro: "Os infratores usam canais privados e fracionamento físico para dificultar a coleta de provas. É preciso endurecer as punições, intensificar as inspeções online e rastrear a origem das reações adversas relatadas pelos consumidores."
4. Kits de clareamento rápido de salão sem registro de eficácia especial.
Para Rex, "os consumidores focam no resultado rápido e ignoram os efeitos colaterais de longo prazo. Produtos que prometem clareamento imediato quase sempre escondem riscos graves, e a falta de registro oficial eleva esse perigo exponencialmente."
Munchkin complementa: "Muitos produtos de clareamento rápido vendidos em clínicas de estética de bairro contêm hormônios e metais pesados. Eles mostram resultados em poucos dias, mas causam danos irreversíveis à pele a longo prazo."
5. Máscaras faciais ultra-baratas: riscos de contaminação industrial.
Recentemente, um profissional do setor de terceirização de cosméticos revelou que máscaras faciais vendidas a preços irrisórios (cerca de 0,20 RMB ou US$ 0,03) em plataformas de atacado são verdadeiras armadilhas para novos empreendedores. O custo mínimo de produção de uma máscara segura e em conformidade regulatória é de pelo menos 1,20 RMB. Essas versões ultra-baratas utilizam matérias-primas industriais de baixa qualidade, conservantes altamente irritantes e tecidos reciclados contendo agentes fluorescentes, resultando frequentemente em processos alérgicos graves e no fechamento das lojas virtuais por infrações sanitárias.
Rex critica a postura de alguns elos da cadeia produtiva: "Marcas, fábricas terceirizadas e plataformas de e-commerce muitas vezes buscam apenas o lucro de curto prazo, negligenciando auditorias rigorosas e prejudicando a reputação de toda a indústria."
O Dr. Bing Han sugere uma mudança de foco na fiscalização: "Embora o controle de processos prévios seja importante, as autoridades deveriam focar as inspeções na detecção de aditivos ilegais e substâncias proibidas no produto final."
6. Marcas genéricas (white labels) com marketing enganoso e falta de controle de lote.
Muitas marcas genéricas de rápido crescimento (conhecidas como white labels) conseguem obter o registro básico, mas falham no controle de qualidade de cada lote e utilizam termos pseudocientíficos como "tecnologia de rejuvenescimento celular" para inflar suas alegações de eficácia.
A persistência dessas irregularidades deve-se a três tipos de arbitragem regulatória: a arbitragem de identidade (confundindo pós artesanais ou produtos desinfetantes com cosméticos para escapar das regras), a arbitragem de processo (dividindo as etapas de envase, rotulagem e embalagem entre diferentes empresas para diluir a responsabilidade legal) e a arbitragem de plataforma (utilizando transmissões ao vivo efêmeras e vendas diretas por aplicativos de mensagens para evitar o rastreamento).
Sobre a fiscalização dessas marcas genéricas, Rex afirma: "As novas marcas que surgem diariamente nas redes sociais frequentemente exageram suas propriedades benéficas. As barreiras de entrada nas plataformas de e-commerce são muito baixas, e a regulação precisa ser muito mais rígida com esses novos players."
Esses comerciantes dominam a psicologia do consumidor: de um lado, apelam para o conceito de "ingredientes naturais e ancestrais" para atrair quem rejeita a industrialização; de outro, prometem "renovação da pele em sete dias", desafiando as leis científicas do metabolismo celular. O cenário torna-se ainda mais complexo quando fábricas licenciadas aceitam produzir a base desses produtos sem registro e influenciadores utilizam uma imagem de especialistas em medicina tradicional para conquistar a confiança do público.
Para estabelecer um mecanismo de controle de longo prazo, especialistas concordam que a responsabilidade compartilhada e a coordenação intersetorial são fundamentais:
Primeiro, as marcas devem adotar uma visão de negócios ética e de longo prazo, e as fábricas de fabricação por contrato (OEM/ODM) devem operar estritamente dentro das normas. Segundo, as plataformas de e-commerce e live commerce precisam elevar os critérios de auditoria e assumir a responsabilidade pela fiscalização dos vendedores. Terceiro, os órgãos de vigilância sanitária e regulação de mercado devem realizar inspeções conjuntas frequentes. Quarto, os veículos de imprensa do setor devem expor as empresas infratoras e valorizar as marcas que cumprem as normas.
Do lado do consumidor, é essencial promover a educação científica sobre cuidados com a pele, capacitando o público a identificar produtos registrados e seguros, ajudando a fechar as lacunas de fiscalização do mercado.
Li Jincong acrescenta: "Quando um consumidor sofre uma reação adversa grave, o processo de denúncia e a coleta de provas ainda são complexos, e os órgãos de fiscalização enfrentam sobrecarga de trabalho. Por isso, precisamos aprimorar o monitoramento digital e criar sistemas eficientes de rastreabilidade de reações adversas."
O Dr. Bing Han resume o desafio estrutural: "Precisamos construir um ambiente de mercado onde as empresas éticas prosperem e as irregulares percam totalmente o espaço de atuação. Historicamente, a governança social exige tanto o incentivo às boas práticas quanto a punição severa dos desvios. Se as infrações não forem punidas, a concorrência leal torna-se inviável."
A indústria de cosméticos deve rejeitar a pseudociência disfarçada de inovação. O verdadeiro skincare científico baseia-se em ingredientes transparentes, eficácia comprovada e segurança controlada. O caos dos cosméticos virais "ancestrais" nada mais é do que o uso de narrativas anticientíficas para mascarar uma grave violação à saúde do consumidor.
















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