Sa Sa International reverte seis anos de perdas com alta de 160% nos lucros
Após fechar lojas deficitárias na China continental, a gigante do varejo de beleza Sa Sa International foca em eficiência e vê lucros dispararem 160%.
O varejo físico de cosméticos está passando por uma polarização sem precedentes. De um lado, a gigante Sa Sa International, após encerrar todas as suas operações físicas na China continental, reportou um salto impressionante de 160,5% em seus lucros, enquanto o Lung Fung Group estreou com sucesso na Bolsa de Hong Kong com uma alta de 33,2% em sua receita. Do outro, redes locais enfrentam processos de falência e marcas tradicionais como a Mannings recuam do mercado chinês.
A regra do jogo no varejo de beleza mudou drasticamente: o tamanho da rede de lojas físicas já não serve como barreira competitiva; a rentabilidade individual de cada ponto de venda é o que realmente importa. Com a divisão cada vez mais clara entre a conveniência do e-commerce e a experiência sensorial das lojas físicas, as multimarcas tradicionais enfrentam um dilema fundamental: não se trata de abandonar o varejo físico, mas de repensar como operar nele.
Para marcas de beleza e fornecedores internacionais que buscam expandir na Ásia, o caso da Sa Sa International serve como um alerta estratégico. Ele demonstra que a era da expansão física agressiva e de queima de caixa na China continental deu lugar a uma busca obstinada pela eficiência operacional. O sucesso atual reside na consolidação de mercados maduros e de alta conversão, como Hong Kong, Macau e o Sudeste Asiático, combinada com uma forte presença digital integrada.
De "seis anos de perdas" a um salto de 1,6 vez nos lucros
Recentemente, a Sa Sa International divulgou seus dados financeiros não auditados para o primeiro trimestre do ano fiscal de 2026/27 (período de 1º de abril a 30 de junho de 2026): o faturamento total atingiu 1,179 bilhão de dólares de Hong Kong (HKD), cerca de R$ 830 milhões, representando uma alta anual de 22,9%. As vendas físicas totais somaram HKD 992 milhões (alta de 29,3% YoY), impulsionadas principalmente pelo crescimento de 31% em Hong Kong e Macau, e de 15,1% no Sudeste Asiático.
As vendas online totalizaram HKD 187 milhões, uma leve queda de 2,9% em comparação ao ano anterior. Essa redução foi estratégica: o grupo optou por diminuir as transações B2B de atacado, que possuem margens de lucro mais baixas, para concentrar seus recursos no varejo físico e no e-commerce direto ao consumidor (B2C), canais muito mais rentáveis. Até 30 de junho de 2026, o grupo operava 160 lojas físicas, sendo 87 localizadas em Hong Kong e Macau.
Essa recuperação contrasta fortemente com o cenário dos anos anteriores. No ano fiscal de 2024/25, a Sa Sa registrou uma queda de 9,7% no faturamento e um tombo de 64,8% no lucro líquido. As operações na China continental acumularam um prejuízo de HKD 300 milhões ao longo de seis anos. No auge de sua expansão na região, em 2022, a rede chegou a ter 77 lojas físicas no continente, que acabaram se tornando grandes drenos de caixa em vez de gerar valor.
A virada de chave ocorreu quando a empresa decidiu fechar suas últimas 18 lojas físicas na China continental até junho de 2025, retirando-se completamente desse mercado físico para estancar os prejuízos.
A lógica da virada: "subtrair" gera mais valor do que expandir
A recuperação da Sa Sa International não se baseou em fazer mais, mas em fazer menos e com maior precisão.
- Eliminação de ativos ineficientes: O fechamento das lojas físicas na China continental reduziu drasticamente os custos fixos com aluguel e pessoal. Como o e-commerce já representava mais de 80% do faturamento da marca na região, manter pontos físicos deficitários não fazia mais sentido econômico.
- Foco no mercado principal: Hong Kong e Macau sempre foram a base da Sa Sa (representando 79,7% da receita do grupo no ano fiscal de 2026). Com a retomada do turismo e do consumo local, a marca expandiu estrategicamente suas principais lojas nessas regiões, incluindo uma flagship de mais de 1.300 metros quadrados em Mong Kok.
- E-commerce focado em margem: Na China continental, a Sa Sa manteve sua presença digital por meio de mini-programas no WeChat (aplicativo multisserviços líder na China) e lojas oficiais em plataformas de e-commerce como Tmall e Douyin (a versão chinesa do TikTok). O foco mudou de "gerar volume de vendas" para "gerar lucro".
- Sudeste Asiático como motor de crescimento: Com 75 lojas na Malásia e em Singapura, a região foi definida como o segundo pilar de crescimento do grupo, que planeja dobrar suas vendas locais em três anos por meio da otimização de lojas físicas e expansão digital.
Entre IPOs e falências: não há resposta única para o varejo físico
A reestruturação da Sa Sa reflete um movimento mais amplo de consolidação na Indústria da Beleza. Enquanto redes tradicionais como Wanning e Watsons fecham centenas de lojas na China continental devido à perda de relevância de seus pontos físicos frente ao e-commerce, outros players encontram caminhos de forte expansão.
O Lung Fung Group, por exemplo, estreou com sucesso na Bolsa de Hong Kong em junho de 2026 após registrar um crescimento de 33,2% em sua receita anual, consolidando-se como uma força no segmento de farmácias de cosméticos. Por outro lado, players globais continuam mostrando resiliência: a americana Ulta Beauty, que tem atraído marcas independentes de destaque para suas prateleiras físicas, registrou um faturamento de US$ 3,16 bilhões no primeiro trimestre do ano fiscal de 2026 (alta de 11,08% YoY), enquanto a rede europeia Douglas planeja ultrapassar a marca de 2.000 lojas no continente europeu.
A diferença entre quem cresce e quem encolhe está na proposta de valor do espaço físico. Os vencedores oferecem eficiência logística, curadoria exclusiva ou experiências de serviço que o ambiente online não consegue replicar. Já as redes que tratam a loja física apenas como uma prateleira estática acabam esmagadas pelos custos operacionais e pela concorrência direta com o e-commerce de baixo custo.
Para a Sa Sa, a saída do varejo físico da China continental não foi uma derrota, mas uma decisão pragmática: em vez de travar uma guerra de preços em território hostil, o grupo preferiu recuar e fortalecer suas fortalezas tradicionais.



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