Divórcio de fundador revela falhas de governança na Lily & Beauty
A Lily & Beauty, principal parceira de e-commerce de marcas globais na China, tenta se recuperar financeiramente em meio a escândalos de governança.
Enquanto os resultados financeiros ensaiam uma recuperação, a governança corporativa da Lily & Beauty enfrenta um verdadeiro colapso.
Recentemente, a Lily & Beauty (Liren Lizhuang), uma das maiores operadoras e distribuidoras de e-commerce de cosméticos da China, divulgou sua previsão de resultados para o primeiro semestre de 2026. A empresa estima um lucro líquido entre 22,08 milhões e 26,50 milhões de yuans (cerca de US$ 3 milhões a US$ 3,6 milhões), revertendo o prejuízo registrado no mesmo período do ano anterior.
De acordo com o relatório, a virada financeira deve-se principalmente à consolidação de suas operações tradicionais de varejo digital e, desde 2024, à expansão de sua atuação como distribuidora exclusiva (general agency) de marcas internacionais, além da estruturação de um sistema de distribuição multicanal.
Durante o período, essas novas frentes de negócios ganharam escala, elevando a margem de lucro bruto geral. Paralelamente, a companhia adotou uma gestão operacional mais rigorosa, otimizando os investimentos de marketing de suas marcas próprias e controlando custos de forma científica para sustentar a melhora nos resultados.
A estratégia de distribuição exclusiva começou a gerar retornos expressivos. No primeiro trimestre de 2026, a receita dessa divisão cresceu mais de 300% em comparação ao ano anterior, representando cerca de 18% do faturamento total da empresa.
No cenário global, a Lily & Beauty continua expandindo suas parcerias. Nos últimos anos, a distribuidora fechou acordos de representação com marcas estrangeiras de destaque, como 7th Heaven, Endocare e Geomar.
No entanto, a recuperação financeira não apaga as graves crises de gestão interna. Pouco antes da divulgação do balanço positivo, a Lily & Beauty recebeu uma advertência formal do órgão regulador de valores mobiliários de Xangai devido a irregularidades na divulgação de informações financeiras, expondo profundas falhas de governança.
As investigações apontaram três principais violações regulatórias cometidas pela empresa:
- Garantias externas não declaradas: Entre dezembro de 2017 e janeiro de 2022, a empresa ofereceu garantias financeiras para ajudar diversos de seus fornecedores a obter empréstimos bancários, sem submeter os acordos à aprovação do conselho ou reportá-los ao mercado.
- Transações ocultas com partes relacionadas: Desde 2019, a companhia omitiu sua relação com a Shanghai Maipeng E-commerce Co., Ltd. e deixou de declarar as transações comerciais realizadas com essa parceira entre 2019 e 2022.
- Desvio de fundos para fins pessoais: Entre 2021 e 2024, a Lily & Beauty utilizou recursos do caixa corporativo para pagar advogados e custear o processo de divórcio e disputa de bens do fundador e controlador da empresa, Huang Tao. O valor desviado somou 4,8 milhões de yuans (aproximadamente US$ 660 mil) e foi classificado como apropriação indevida de fundos não operacionais, sem qualquer aprovação ou divulgação oficial.
Diante dessas infrações, o órgão regulador determinou medidas corretivas imediatas. A atual presidente da empresa, Huang Mei (no cargo desde abril de 2025), o ex-diretor financeiro Xu Ding e o gerente geral Ye Mao receberam advertências administrativas.
Além disso, a Lily & Beauty, o fundador Huang Tao (que atuou como presidente e CEO de 2016 a 2025), a ex-diretora financeira Li Aili e o ex-secretário do conselho Du Hongpu foram alvo de censura pública oficial.
Como reflexo do escândalo de governança, as ações da Lily & Beauty fecharam em queda de 1,10% na Bolsa de Xangai, cotadas a 7,18 yuans por ação, restando à empresa um valor de mercado de 2,87 bilhões de yuans. Desde o início do ano, os papéis da companhia acumulam uma desvalorização de 34,43%.
Fundada em 2007 por Huang Tao e Weng Shuhua, a Lily & Beauty abriu capital na Bolsa de Xangai em setembro de 2020, consagrando-se como a "primeira ação de e-commerce de beleza" do mercado chinês. Contudo, o topo durou pouco. Logo após o IPO, a empresa enfrentou a perda de contratos com grandes marcas internacionais e foi abalada pela disputa judicial pública de divórcio de seu fundador, o que fez os resultados despencarem.
Enquanto novas marcas tentam encontrar seu espaço no mercado chinês por meio do comércio social, como o recente lançamento da marca de beleza de Zhao Lusi, gigantes tradicionais da distribuição digital enfrentam crises internas profundas. O faturamento da Lily & Beauty despencou quase 60% em quatro anos, caindo de 4,15 bilhões de yuans in 2021 para 1,69 bilhão de yuans em 2025. Após registrar prejuízos históricos em 2022 e breves recuperações, a empresa voltou a fechar no vermelho em 2024 e 2025.
Embora os números recentes indiquem um fôlego financeiro temporário, o caminho para a estabilidade ainda é incerto. Para reconquistar a confiança do mercado e de marcas globais, a antiga líder do e-commerce de beleza precisará provar que consegue reestruturar sua governança interna e blindar sua operação de escândalos familiares.





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